29/01/12

ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE - 44

ENTRANDO NO MAR

madrigal


Aquela enorme frieza
Não entristeça ninguém...
Ela estende o seu desdém
À sua própria beleza:

Quando, solta do vestido,
Sai da frescura do banho,
O seu cabelo castanho,
Esse cabelo comprido,

Que frio, que desconsolo!
Deixa ficar-se pendente,
Em vez de feito em serpente
Ir enroscar-se-lhe ao colo!

Camilo Pessanha,Clepsydra

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21/11/11

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE » - 43


autores

Tatuagens complicadas do meu peito:
Troféus, emblemas, dois leões alados...
Mais, entre corações engrinaldados,
Um enorme, soberbo, amor-perfeito...

E o meu brasão ... Tem de oiro, num quartel
Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,
Em campo azul, de prata o corpo, aquela
Que é no meu braço como que um broquel.

Timbre: rompante, a megalomania...
Divisa: um ai – que insiste noite e dia
Lembrando ruínas, sepulturas rasas...

Entre castelos serpes batalhantes,
E águias de negro, desfraldando as asas,
Que realça de oiro um colar de besantes!


Camilo Pessanha,Clepsydra

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04/02/11

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 42

Photobucket

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

Camilo Pessanha in "Clepsydra"

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02/11/10

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE - 41

aristicrata-Philip Alexius de László

Estátua

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, - frio escalpelo,
-O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista d' um rochedo.

Segredo d' essa alma, e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo,
Fui teu lábio oscular, n' um pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
D' esse entreaberto lábio gelado...

D 'esse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Camilo Pessanha ,Clepsydra

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18/07/10

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 40

marinhas

SAN GABRIEL

I

Inútil! Calmaria. Já colheram
As velas. As bandeiras sossegaram,
Que tão altas nos topes tremularam,
– Gaivotas que a voar desfaleceram.

Pararam de remar! Emudeceram!
(Velhos ritmos que as ondas embalaram)
Que cilada que os ventos nos armaram!
A que foi que tão longe nos trouxeram?

San Gabriel, arcanjo tutelar,
Vem outra vez abençoar o mar,
Vem-nos guiar sobre a planície azul.

Vem-nos levar à conquista final
Da luz, do Bem, doce clarão irreal
Olhai! Parece o Cruzeiro do Sul!

II

Vem conduzir as naus, as caravelas,
Outra vez, pela noite, na ardentia,
Avivada das quilhas. Dir-se-ia
Irmos arando em um montão de estrelas.

Outra vez vamos! Côncavas as velas,
Cuja brancura, rútila de dia,
O luar dulcifica ... Feeria
Do luar não mais deixes de envolvê-las!

Vem guiar-nos, Arcanjo, à nebulosa
Que do além vapora, luminosa,
E à noite lactescendo, onde, quietas,

Fulgem as velhas almas namoradas
– Almas tristes, severas, resignadas,
De guerreiros, de santos, de poetas.


Camilo Pessanha,Clepsydra

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05/01/10

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» -39



Rosas de inverno

Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo‑vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito‑vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.


Camilo Pessanha, Clepsydra

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27/10/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 38



No claustro de Celas


Eis quanto resta do idílio acabado,
– Primavera que durou um momento...
Como vão longe as manhãs do convento!
– Do alegre conventinho abandonado...

Tudo acabou... Anémonas, hidrângeas,
Silindras – flores tão nossas amigas!
No claustro agora viçam as ortigas,
Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.

Sobre a inscrição do teu nome delido!
– Que os meus olhos mal podem soletrar,
Cansados ... E o aroma fenecido

Que se evola do teu nome vulgar!
Enobreceu-o a quietação do olvido,
Ó doce, ingénua, inscrição tumular.

Camilo Pessanha,Clepsydra

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21/08/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 37



Vida

Choveu; e logo da terra humosa
Irrompe o campo das liliáceas
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liliáceas!

Calquem, recalquem, não o afogam.
Deixem. Não calquem. Que tudo invadem
Não as extinguem, porque as degradam?
Para que as calcam? Não as afogam.

Olhem o fogo que anda na serra.
É a queimada…Que lumaréu!
Podem calcá-lo, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.

Deixem! Não calquem! Deixem arder.
Se aqui o pisam, rebenta além.
- E se arde tudo? - Isso que tem!
Deitam-lhe fogo, é para arder…

Camilo Pessanha

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15/08/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 36



Depois da luta e depois da conquista
Fiquei só! Fora um acto antipático!
Deserta a Ilha, e no lençol aquático
Tudo verde, verde – a perder de vista.

Porque vos fostes, minhas caravelas,
Carregadas de todo o meu tesoiro?
– Longas teias de luar de lhama de oiro.
Legendas a diamantes das estrelas!

Quem vos desfez, formas inconsistentes
Por cujo amor escalei a muralha,
– Leão armado, uma espada nos dentes?

Felizes vós, ó mortos da batalha!
Sonhais, de costas, nos olhos abertos
Reflectindo as estrelas, boquiabertos...


Camilo Pessanha,Clepsydra

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12/06/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 35


foto:eli

O meu coração desce,
Um balão apagado...
– Melhor fora que ardesse,
Nas trevas, incendiado.

Na bruma fastidienta,
Como um caixão à cova...
– Porque antes não rebenta
De dor violenta e nova?!

Que apego ainda o sustém?
Átomo miserando...
– Se o esmagasse o trem
Dum comboio arquejando!...

O inane, vil despojo
Da alma egoísta e fraca!
Trouxesse-o o mar de rojo,
Levasse-o na ressaca.

Camilo Pessanha, Clepsydra

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19/05/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 34















Estátua

Cansei-me de tentar o seu segredo:
No teu olhar sem cor, - frio escalpelo, -
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo,
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Camilo Pessanha - Clepsydra

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13/04/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 33


Erhart

Madalena
...e lhe regou de lágrimas os pés,
e os enxugava com os cabelos da sua cabeça.

Evangelho de S. Lucas.

Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem revelo, os caracteres gastos,

De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensanguentado, enxovalhado, inútil,

Dentro do peito, abominável cómico!
Morrer tranquilo, – o fastio da cama.
Ó redenção do mármore anatómico,

Amargura, nudez de seios castos,
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos!

Camilo Pessanha - Clepsydra

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22/02/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» -32



Depois das bodas de oiro,
Da hora prometida,
Não sei que mau agoiro
Me enoiteceu a vida...

Temo de regressar...
E mata-me a saudade.
- Mas de me recordar
Não sei que dor me invade.

Nem quero prosseguir,
Trilhar novos caminhos,
Meu pobres pés dorir,
Já roxos dos espinhos.

Nem ficar... e morrer:
Perder-te, imagem vaga...
Cessar, não mais te ver,
Como uma luz se apaga.

Camilo Pessanha -Clepsydra

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29/01/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE»- 31



Roteiro da Vida

I

Enfim, levantou ferro.
Com os lenços adeus, vai partir o navio.
Longe das pedras más do meu desterro,
Ondas do azul oceano, submergi-o.

Que eu, desde a partida,
Não sei onde vou.
Roteiro da vida,
Quem é que o traçou?

Nalguma rocha ignota
Se vai despedaçar, com violento fragor...
Mareante, deixa as cartas da derrota.
Maquinista, dá mais força no vapor.

Nem sei de onde venho,
Que azar me fadou!?
Das mágoas que tenho,
Os ais por que os dou...

Ou siga, maldito,
Com a bandeira amarela...
..........................................
Pomares, chalés, mercados, cidades...
A olhar da amurada,
Que triste que estou!
Miragens do nada
Dizei-me quem sou

Camilo Pessanha - Clepsydra

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06/01/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 30


renoir

Se andava no jardim,
Que cheiro de jasmim!
Tão branca do luar!
..................................

.................................
.................................

Eis tenho-a junto a mim.
Vencida, é minha, enfim,
Após tanto a sonhar...

Porque entristeço assim?...
Não era ela, mas sim
(O que eu quis abraçar)

A hora do jardim...
O aroma de jasmim...
A onda do luar...

Camilo Pessanha, Clepsydra

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04/11/08

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 29



Desce em folhedos tenros a colina:
– Em glaucos, frouxos tons adormecidos,
Que saram, frescos, meus olhos ardidos,
Nos quais a chama do furor declina...

Oh vem, de branco – do imo da folhagem!
Os ramos, leve, a tua mão aparte.
Oh vem! Meus olhos querem desposar-te.
Reflectir-te virgem a serena imagem.

De silva doida uma haste esquiva
Quão delicada te osculou num dedo
Com um aljôfar cor-de-rosa viva!...

Ligeira a saia ... Doce brisa impele-a...
Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo!
Alma de silfo, carne de camélia...


Camilo Pessanha. in Clepsydra

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08/08/08

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE»- 28


claude monet

Crepuscular

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, de ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madre-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exala pelo espaço
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se spasmos, agonias de ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas de anemia,
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguecer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.


Camilo Pessanha - Clepsydra

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17/06/08

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 27



Fonógrafo


Vai declamando um cómico defunto.
Uma plateia ri, perdidamente,
Do bom jarreta... E há um odor no ambiente
A cripta e a pó – do anacrónico assunto.

Mudo o registo, eis uma barcarola:
Lírios, lírios, águas do rio, a lua...
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul – extática corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro – o cheiro de junquilhos,
Vívido e agro! – tocando a alvorada...

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas.



Camilo Pessanha,Clepsydra

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23/05/08

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» -- 26



VÉNUS


II

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina
– Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
– Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...


Camilo Pessanha, Clepsydra

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30/04/08

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE»- 25






PAISAGENS DE INVERNO

I.
(A Alberto Osório de Castro)


Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! Volvei, longas noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Cismai, meus olhos, como uns velhinhos.

Extintas primaveras, evocai-as.
– Já vai florir o pomar das macieiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias. –

Sossegai, esfriai, olhos febris...
– E hemos de ir a cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis...

Camilo Pessanha, Clepsydra

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