12/04/12

NOCTURNOS - 109

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Desprotegida a noite foi assaltada por memórias
Azul profundo
Carmim
Amarelas
Seus braços abertos se encheram de sono
Seu cabelo solto de vento
Seus olhos de silêncio.

 Odysseus Elytis -  Sete Nocturnos
(5)
(trad. Mário Cláudio)

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30/03/12

NOCTURNOS - 108

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Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.

Carlos Alberto Machado

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12/03/12

NOCTURNOS -107


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A NOITE 

Pouco sei da noite
mas a noite parece saber de mim,
e para mais, conforta-me como se me desejasse,
cobre-me a consciência com as suas estrelas.

Talvez a noite seja a vida e o sol a morte.
Provavelmente a noite é nada
e nada as conjecturas sobre ela
e nada os seres que a vivem.
Talvez as palavras sejam tudo o que existe
no enorme vazio dos séculos
que nos arranham a alma com as suas recordações.

Mas a noite há-de conhecer a miséria
que bebe do nosso sangue e das nossas ideias.
Ela há-de atirar ódio às nossas observações
sabendo-as cheias de interesses, de desencontros.

Mas sucede que ouço a noite chorar nos meus ossos.
A sua lágrima imensa delira
e grita que algo partiu para sempre.

Um dia voltaremos a ser.


Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)
Versão de Henrique Fialho  in  http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/

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18/01/12

NOCTURNOS - 106

foto de fernand sal monteiro
foto de fernaada sal monteiro

O lago morto


O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens,
A lua.

O murmúrio obstinado que cochicha e passa
(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).
Tão triste agora,
Recai sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.

Minhas pobres alegrias...
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.

Lentamente, a raiz acaba de morrer.

Emily Brontë
(Tradução de Lúcio Cardoso)

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13/12/11

NOCTURNOS - 105

anoitecer em Lisboa-carla laranjeira
foto de carla laranjeira


Desprotegida a noite foi assaltada por memórias
Azul profundo
Carmim
Amarelas
Seus braços abertos se encheram de sono
Seu cabelo solto de vento
Seus olhos de silêncio.

 Odysseus Elytis -Sete Nocturnos (5)
 trad. Mário Cláudio

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12/11/11

NOCTURNOS - 104










Pouco sei da noite
mas a noite parece saber de mim,
e para mais, conforta-me como se me desejasse,
cobre-me a consciência com as suas estrelas.

Talvez a noite seja a vida e o sol a morte.
Provavelmente a noite é nada
e nada as conjecturas sobre ela
e nada os seres que a vivem.
Talvez as palavras sejam tudo o que existe
no enorme vazio dos séculos
que nos arranham a alma com as suas recordações.

Mas a noite há-de conhecer a miséria
que bebe do nosso sangue e das nossas ideias.
Ela há-de atirar ódio às nossas observações
sabendo-as cheias de interesses, de desencontros.

Mas sucede que ouço a noite chorar nos meus ossos.
A sua lágrima imensa delira
e grita que algo partiu para sempre.

Um dia voltaremos a ser
.



Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas
 Versão de HMBF  in  http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/

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26/10/11

NOCTURNOS - 103

Envelhece-se mais devagar ao anoitecer. A morte enrosca-se, faz uma trégua até que de novo amanheça. Sou um homem nocturno, a luz do dia aumenta o conhecimento da minha escassa eternidade.

Malcom Lowry
http://cortenaaldeia.blogspot.com/?zx=ff0c7c7d0ee8d608

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16/09/11

NOCTURNOS - 102

animais;aves

Sete Luas

Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.

Natália Correia

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25/08/11

NOCTURNOS - 101



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Pouco sei da noite
mas a noite parece saber de mim,
e para mais, conforta-me como se me desejasse,
cobre-me a consciência com as suas estrelas.

Talvez a noite seja a vida e o sol a morte.
Provavelmente a noite é nada
e nada as conjecturas sobre ela
e nada os seres que a vivem.
Talvez as palavras sejam tudo o que existe
no enorme vazio dos séculos
que nos arranham a alma com as suas recordações.

Mas a noite há-de conhecer a miséria
que bebe do nosso sangue e das nossas ideias.
Ela há-de atirar ódio às nossas observações
sabendo-as cheias de interesses, de desencontros.

Mas sucede que ouço a noite chorar nos meus ossos.
A sua lágrima imensa delira
e grita que algo partiu para sempre.

Um dia voltaremos a ser
.


Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas 

 Versão de HMBF  in  http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/

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24/07/11

NOCTURNOS - 100

NATUREZA
Qué tristeza este pasar
el caudal de cada día
(vueltas arriba y abajo!),
por el puente de la noche
(vueltas abajo y arriba!),
al otro sol!
Quién supiera
dejar el manto, contento,
en las manos del pasado;
no mirar más lo que fue;
entrar de frente y gustoso,
todo desnudo, en la libre
alegría del presente!



Juan Ramón Jiménez

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21/07/11

NOCTURNOS - 99

chopin.varsovia

CHOPIN

Não se acende hoje a luz... Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!

Entram falenas meio entontecidas...
Lusco-fusco... Um morcego, a palpitar,
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...

Mansinho... Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!

E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira,
Vem para mim da escuridão da sala...

Florbela Espanca

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02/07/11

ENSINOU A PENSAR EM RITMO - 11

noite


Génio da Noite

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo, triste e lento
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

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22/06/11

NOCTURNOS - 98

rena boss forman

Nocturnos De La Ventana

1

Alta va la luna.
Bajo corre el viento.

(Mis largas miradas,
exploran el cielo.)

Luna sobre el agua,
Luna bajo el viento.

(Mis cortas miradas,
exploran el suelo.)

Las voces de dos niñas
venían. Sin el esfuerzo,
de la luna del agua,
me fuí a la del cielo.

2

Un brazo de la noche
entra por mi ventana.

Un gran brazo moreno
con pulseras de agua.

Sobre un cristal azul
jugaba al río mi alma.

Los instantes heridos
por el reloj... pasaban.

3

Asomo la cabeza
por mi ventana, y veo
cómo quiere cortarla
a cuchilla del viento.

En esta guillotina
invisible, yo he puesto
las cabezas sin ojos
e todos mis deseos.

Y un olor de limón
llenó el instante inmenso,
mientras se convertía
en flor de gasa el viento.

4

Al estanque se le ha muerto
hoy una niña de agua.
Está fuera del estanque,
sobre el suelo amortajada.

De la cabeza a sus muslos
un pez la cruza, llamándola.
El viento le dice “niña”
mas no puede despertarla.

El estanque tiene suelta
su cabellera de algas
y al aire sus grises tetas
estremecidas de ranas.

Dios te salve. Rezaremos
a Nuestra Señora de Agua
por la niña del estanque
muerta bajo las manzanas.

Yo luego pondré a su lado
dos pequeñas calabazas
para que se tenga a flote,
¡ay! sobre la mar salada.

Federico García Lorca

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28/05/11

NOCTURNOS - 97

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Micaela

Señora de la Noche: protege a Micaela de la soledad que desconoce; que por su sombra no crucen más los ríos funestos de la revolución, el eclipse de los templos cerrados, las furias del secuestro de su hijo. De sus muertos ella se permite depositarlos aquí y allá, en la habitación de sus entrañas. Tú vigila, por favor, dale la gracia de no padecer el infierno que hemos construido y habitamos. Todos te lo pedimos, señora de la Noche: déjala soñar.

Víctor Manuel Cárdenas
Colocado por Soledade Santos no Facebook

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20/05/11

PÉROLAS -225

limelight -por eli
foto de eli


Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos.     
José de Almada Negreiros

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04/05/11

NOCTURNOS - 95

nocturnos

Entardecer na Praia da Luz

Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
das buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.

Albano Martins em Castália e Outros Poemas

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18/03/11

NOCTURNOS - 94

limelight -por eli

Depois do Sol...

Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
— As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho . . .

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .


Cecília Meireles

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09/03/11

POETAS MEUS AMIGOS - 148

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Crua


Toda noite foge: o fogo, o frio na espinha.
Toda noite escorre um líquido sem
dor, sem cheiro, sem molhar, sem qualquer
encharcar-se de razão e no entanto e precisamente
ali nas entrelinhas de onde se vislumbra. Toda
noite o buraco onde se metem se comprazem de
meter-se. O Grande Buraco, Grande Buraco, ninguém
sabe precisar. Toda noite a sôfrega procura obstinada,
crua.

Nilson Galvão
publicado em BLAG- http://nilsonpedro.wordpress.com/

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19/01/11

NOCTURNOS - 93

lua cheia

Partitura com Lua

Notação de pássaros
nos fios da rua:
mínimas semínimas pausas.
Sobre o piano rosas estremecem.
Cadências de alma sobressaltam um público
desatento e ao relento ressoam
algumas dissonâncias (tropel de potros
presos numa sala). Mas por acaso em pura sintonia
pássaros refazem a partitura
no heptacorde dos fios da rua.
Ei-la tão plena no dia findo azulado -
a lua soberana e alta
do sono deste outono.

Dora Ferreira da Silva

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02/01/11

NOCTURNOS - 92

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Noite poema


hostil o sonho reverbera nos sentidos
às cegas
- são as mãos sem uma estrela
nos olhos
o tempo sem destino
- esta palavra...

Lilia Silvestre Chaves

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