04/05/12

POETAS MEUS AMIGOS - 164

mulher no colmo
não estranhar
a crença
da existência
(no espaço vazio)
(entre os nós de bambu)

da pura energia
onde se hospedam anjos
Carmen Cinira

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21/03/12

POETAS MEUS AMIGOS - 163

FIGOS 1a
  
figos maduros 

...................................ai de mim
com esta figueira crescendo dentro
sem saber direito o momento da poda
ou da colheita 

.........................ai de mim
que não entendo de árvores
e não compreendo o que dizem
........................o que fazem 

como agem na hora do corte
e depois
na transcendência das figueiras 

..........não sei da casca
..........grossa no caule leitoso
..........que com o tempo será
..........fibra impermeável 

....................................ai de mim
que percorro a mansidão invisível
como um galo cumprindo o ofício
.............................das manhãs

 Lau Siqueira
(poema do livro Texto Sentido)
Lau publica também no seu blogue http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/

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10/03/12

POETAS MEUS AMIGOS - 162

papoilas-campo de

Cartas da tarde

O meu amor sabe o meu coração.
Quando estiver a chegar, vai tossir e fazer barulho com os sapatos.
Vou ficar contente e e nem era preciso o cuidado:
o corpo inteiro guarda-lhe os cheiros e adivinha-o com os olhos.

Estudo o vento todas as tardes. 
Olho as colinas por onde vem quem espero, quem me conhece de coração, 

.......................................................de quem sei as cores que traz nos olhos;
são as que lhe dei naquele dia que sabe.

Zef 

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05/03/12

POETAS MEUS AMIGOS -161


Iluminações


Há uma rachadura em todas as coisas.
É por ela que a luz entra.
                                    Leonard Cohen



A luz de dentro dos olhos
vem do ar que se respira.


Tudo que existe
até os pensamentos mais soturnos
sobrevive da luz que aspira
– um toque do pintor em rua escura
os vagalumes fugindo e renascendo
à luz do vento.


Vem pelas veias do céu
em anos-luz de linhas desmedidas
tecendo teias.
Procura pedras da terra
vestes rasgadas
na guerra os corpos feridos.

A luz é do que corrompe ou regenera
não salva – só ilumina
não planta
germina e cresce.
Tudo que brilha é desdobramento
e é o sangue a luz do corpo.



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29/02/12

PÉROLAS - 240

gaivota 1
img. de catedral(blogue)

a sombra de uma gaivota
de súbito poisou
nos meus olhos
marejando-os de sal

Bénédicte Houart em Vida:Variações II
Ed.Cotovia,Lisboa,2011

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18/02/12

POETAS MEUS AMIGOS -151

pedras 1

Sabor das pedras
(excerto)

Adoro saber das pedras
dos acúmulos
das coisas que se fartam de existir
de trespassar o tempo
de atropelar paisagens
mudar seu perfil
salvar
ater
ou apenas deixar-se levar
ou deixar-se morrer

[...]

Eliana Mora

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02/02/12

POETAS MEUS AMIGOS - 160

arcano-vitral

Desencontro

Do alto
talvez algum arcanjo
tenha indicado o caminho
e não reconheci sua voz.
Que pena.
Teria chegado mais depressa
ao paraíso
mas não sabia
por onde se sobe aos céus.

Adelaide Amorim
http://inscries.blogspot.com/

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11/01/12

POETAS MEUS AMIGOS -159



A ouvir - poesia de Nuno Dempster:
Programa radiofónico dedicado à sua poesia:
http://campus.usal.es/~radiouni/sites/default/files/portugues19ctubre.mp3
(informação de Soledade Santos no FBook)

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06/01/12

POETAS MEUS AMIGOS -158

melancolie-t.lautrec
toulouse lautrec, retrato de suzanne valadon


No rasto da tristeza
Mal entrei 
vi 
a mulher passeava os olhos
 
nas paredes cheias do café
 
duas lágrimas de vinho no copo branco
 
uma maçã mordida ao lado do jogo de xadrez
 

Entrou-me aqui - disse a dona do café-
 
só adivinho misérias
 

Voltei a olhar
vi
 
a mulher tinha uma medalha no fio
 
nas mãos dois anéis de coração
 
um de vidro outro de ouro
 
olhava o fim da tarde na serpentina
 
da televisão
 


Um ruído sobressaltado e decifrado pela dona do café
 
-não tenho visto nada em condições
 
só adivinho misérias_
 


A mulher dizia isto
 
naquele tempo os campos só davam estradas
 
as estrelas morriam no calor das noites
 
havia um coração peregrino que era o meu
 
não sofria caminhos nem dava morte
 
anoitecia tanto
 
eu ainda não estava aqui
 

Levantou -se e veio ao meu encontro
 
disse -me
 
vou contar-lhe um segredo
 
cheguei pela margem aqui
 
estendeu-me as mãos frias
 
fechou os olhos
 
no contentamento de calor humano
 

eu não incomodo ninguém

José Ribeiro Marto
http://vaandando.blogspot.com/

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30/12/11

POETAS MEUS AMIGOS -157

eli
no dia de hoje

toda a tua vida, todos os teus erros,
convergem na glória do que és: celebra-te
no dia de hoje, canta sob o renovado sol
que toda a noite te aguardou.

gonçalo bruno de sousa___

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20/12/11

POETAS MEUS AMIGOS -156

monte ararat
 img:monte ararat

Arca 

A nau do sono recolhe fugitivos
como se fosse a arca de Noé.

E se adormecem felizes os amantes
e os filhos com seus pais 

acalentados em noites de bonança
contra a corrente dormem
solitários 
aqueles que sofrem de fome
ou desespero.

O sono nos iguala pelo sonho
porque até no dilúvio deus sabe o que faz
e navegamos todos
rumo ao monte Ararat.

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07/12/11

POETAS MEUS AMIGOS -155

sophia-por arpad

espelho dos teus olhos



sophia de ti
disseram-me que
recitavas poemas
em voz alta nos eléctricos
que cantavas nas ruas de Lisboa
enquanto os teus filhos te procuravam
(viram a mãe, aquela que troca tudo e não confunde nada)
e dançavas frente ao espelho dos teus olhos
sempre sempre ao desafio
ah sophia
sofia eras
sophia és
(passeei pelo teu jardim
tão abandonado estava
deu-me vontade de chorar)
Bénédicte Houart

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17/11/11

POETAS MEUS AMIGOS -154

Lau Siqueira

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14/10/11

ESCREVER - 102

  

[escrever]

Escrever era só a sobra. O que restava depois que o dia ia se cumprindo e ela cumpria seu papel – a casa bem cuidada, as garotas na escola, o almoço tão bem temperado, a roupa limpa e guardada, não fossem os vizinhos – ou pior, o marido – chamá-la de relaxada. Tinha uma reputação a cuidar. Dias ainda havia para as compras, estantes e tanta coisa por limpar e arrumar. E sempre, sempre os eternos ciscos, migalhas nas bancadas da copa, poeira aqui e ali, a gordura mal limpa no fogão. Tinha empregada, sim, mas cada dia ela queria fazer menos e sair mais cedo. E ao fim do dia, os momentos de ócio necessários para azeitar as ideias e deixar fluir certa energia semicósmica – porque em parte vinha era de dentro. Nem sabia se era mesmo energia: era mais concreto, como liberar alguma coisa física, um miniparto. E porque nada ainda estava dito, era então preciso colher palavras, limpar a terra, o sangue, a aura estranha e revirá-las sobre o teclado e plantá-las no monitor entre as outras, em sequência de alguma lógica, às vezes nem isso. Sentir e pesar seu efeito, seu tempo de validade, porque às vezes ficavam murchas, pobres, indigestas ou indigentes de sentido, caso em que nada resolviam de sua necessidade: as palavras são como as cores para o pintor. Há um efeito final a levar em conta que, esse sim, vem de dentro, e é preciso ser fiel a ele. Então deixava passar um tempo e voltava a elas, as palavras. Assim podia ter uma ideia mais clara do que estariam fazendo ali, corrigir algum rumo sem destino como um piloto em vôo. O voo era sempre meio cego. Havia tardes e noites em que as palavras pareciam fluir tão facilmente, e ela enchia páginas e páginas seguidas, contente, realizada, achando o tempo um sonho. Mas não durava muito e a dor secreta dos dias voltava a se insinuar. A dor era sempre, não cessaria nunca e se expressava de um jeito surdo, devorando as entrelinhas. Chegava de leve, depois aumentava de intensidade e afinal causava um mal-estar que a obrigava a se curvar como quem carrega um peso maior que suas forças. Então às vezes apareciam poemas no monitor. 

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11/09/11

POETAS MEUS AMIGOS - 153



No bico de outras penas

Sem poema. Só pena
e papel. Tão grande a pena,
Tão triste o papel!

Feliz é o beija-flor
que faz poesia sem palavras.

              Antônio Adriano de Medeiros
               março de  2011

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19/08/11

PÉROLAS - 229

Tela de Pablo Picasso

Grande aventura
é entregar-se
aos braços do dia que começa.

Adelaide Amorim

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02/08/11

POETAS MEUS AMIGOS - 152

natureza;árvores

Julho

No céu, nenhuma sombra. É o solque volta a ser maciço.
Cintila e fere os olhos, embotando-os
e embotando a imagem
que para si cada homem construiu.



As árvores já mortas
e ipês de cores já plenas pontuam
uma única avenida.
Ainda sobeja o que resta do dia
e o calor é silêncio.

Trabalho que não cessa, caminhões
que toldam o ar de negro,
o almoço gorduroso feito às pressas
e pesado o torpor.
Não há corpo que não queira dormir.

Raivosa e crua luz meridiana
e o seu coração sujo.
O céu é torvelinho. Lancina a tarde.
Um vento carmesim
torna ásperos suor e epiderme.

Se os dias são poemas
são poemas que integram alfarrábios
que toda a gente leu
sem saber que leu – elegia vinda
dos pianos da infância.

E se os dias são poemas, os versos
ardem como esta luz
trêmula e sôfrega que corta o ar
e que ateia fogo às asas dos pássaros.
Cinzas que toda a gente
respira como se não respirasse.

Daniel Francoy
http://oceuvazio.blogspot.com
Nota:O Daniel Francoy publicou, nas edições Artefacto, Lisboa, em 2010, Em cidade Estranha-Retrato de Mulheres

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27/07/11

POETAS MEUS AMIGOS - 151

LER
 
dos livros

os livros que leio são uma extensão minha
os outros estão escritos numa língua estrangeira
a esses vou arrancando as páginas até restar nas mãos
uma fogueira. depois imagino que alguém que passe por eles
me traga um lugar onde o sol me queime os dedos
os meus lábios falam do resto da minha tristeza
e eu escureço lentamente com o segredo das árvores

 Maria Azenha

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19/05/11

POEMAS COM ROSAS DENTRO - 95

flores.ross


siendo que es la rosa
¿quíén consiente su corte?
qué señal terrible
hay en su muerte?
corazón
te he arrojado a los vientos
tu desolación sin gritos
la guarde conmigo


Carlos Alberto Roldan

 


sendo que é a rosa
¿quem consente o seu corte?
que sinal terrível
há na sua morte?
coração,
lancei-te aos ventos
a tua desolação sem gritos
guarde-a eu comigo.

Trad. de Amélia Pais

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30/04/11

POETAS MEUS AMIGOS - 150

na paisagem


A chuva


ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas
e.e.cummings

e chove
tua cidade esconde a serenidade de saber-te ali
ao alcance do meu grito mais suave
entre caminhos de vozes e ventos cuja cor chora 
desistência dos sonhos
e ama
tua chuva cai em meus cabelos como aquelas flores
pintadas nos jardins de Uffizi - enquanto choves
diz ao meu desejo: qual a estação do teu olhar -
ao meu recordo no ciclo entre mim e as nuvens
 e lembra
aqui era o sereno feito corpo mais que sentimento
quando os grilos encantavam as águas em outro ermo -
 apenas o teu nome sabe a imensa e minha loucura -
e ousa
se ousares abre mais essa janela que o caibro
........................................  [esconde
e voa sobre as palmas - as mãos de chuva nos
..................................... ....[meus olhos
e acalenta
estas palavras como sempre e nunca -
e esquece

Lilia Silvestre Chaves

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