09/05/12

OS MEUS POETAS - 251


LIBERDADE
                (Falta uma citação de Séneca)

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa  

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03/05/12

ENTRA MAIO E SAI ABRIL


papoilas



Entra Maio e sai Abril
tão enfeitado o vi vir.
Entra Maio e suas flores,
sai Abril com seus amores,
e os doces amadores
começam a bem servir.

In Lírica Espanhola de Tipo Tradicional
Tradução de José Bento

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27/04/12

OS MEUS POETAS - 250

relógio do
rosario
Relógio do rosário
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio chôro, 
e compomos os dois um vasto côro.

Oh dor individual, afrodisíaco 
sêlo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada, 
nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer, 
a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome, 
ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa 
indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos, 
nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas, 
do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino, 
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única 
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face... Ele murmura 
algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta, 
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência 
ao contacto furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício 
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo, 
estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário, 
foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas, 
já se permite azul, risco de pombas.

drummond,claro enigmaCarlos Drummond de Andrade 

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21/04/12

OS MEUS POETAS -248

14/04/12

OS MEUS POETAS - 249

passarito -radimScheiber

Versos

Tão cego
apesar da felicidade da vista
tão surdo
apesar do privilégio do ouvido

Uma folha ao vento só tu na romanza
o pássaro na rede Na chuva um cantar
um verme na rosa na esperança uma armadilha
lágrimas na garganta Nas tuas palavras sangue

Tão cego
apesar da felicidade da vista
tão surdo
apesar do privilégio do ouvido

Frantisek Halas

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12/04/12

NOCTURNOS - 109

Photobucket

Desprotegida a noite foi assaltada por memórias
Azul profundo
Carmim
Amarelas
Seus braços abertos se encheram de sono
Seu cabelo solto de vento
Seus olhos de silêncio.

 Odysseus Elytis -  Sete Nocturnos
(5)
(trad. Mário Cláudio)

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07/04/12

OS MEUS POETAS - 247

a boneca
img encontrada no facebook

[ A verdade ]


Je ne crois que les histoires dont les
témoins se feraient égorger!
Pensées, Pascal
Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer:
 Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.

 O mestre zangou-se comigo:
 Não minta! diga a verdade!

E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. 

O mestre ainda se zangou mais comigo:
 Não minta! diga a ver­dade!!


E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não.


Então o mestre perdeu a cabeça comigo:
Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me pas­sou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta con­fessei a verdade:

 Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de­-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas!
Mestre! A boneca tinha os dedos finos...

(Escrito em 1921.)

José de Almada Negreiros

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22/03/12

OS MEUS POETAS - 246







A Borboleta



Feliz muito feliz
tenho sido bastantes vezes na vida
mas acima de tudo quando fui libertado
na Alemanha
porque comecei a olhar uma borboleta
sem vontade de a comer


Tonino Guerra - realizador e poeta, falecido ao 92 aos,no dia da flor.
Tradução: Nuno Dempster 


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20/03/12

OS MEUS POETAS - 245

orvalho

  
A Lágrima


Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Sêca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.

Sobre uma folha hostil duma figueira brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,

A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.

Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrêla.

Passa um rei com o seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.

- "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,
Há safiras sem conta e brilhantes sem par,

"Há rubins orientais, sangrentos e doirados,
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.

"Há pérolas que são gotas de mágoa imensa,
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.

"Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir

"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.

Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,
Passa no seu ginete um cavaleiro andante.

E o cavaleiro diz à lágrima irisada:
"Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!
"Far-te hei relampejar, de vitória em vitória,
Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!

"E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.

"E assim alumiarás com teu vivo esplendor
Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!"

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.

Montado numa mula escura, de caminho,
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.

Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d'oiro.

E o velhinho andrajoso e magro como um junco,
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,

Vendo a estrêla, exclamou: "Oh Deus, que maravilha!
Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!

"Com meu oiro em montão podiam-se comprar
Os impérios dos reis e os navios do mar,

"E por esse diamante esplêndido trocara
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!"

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.

Debaixo da figueira, então, um cardo agreste,
Já ressequido, disse à lágrima celeste:

"A terra onde o lilaz e a balsamina medra
Para mim teve sempre um coração de pedra.

"Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.

"Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,
Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos.

"Nunca junto de mim ranchos de namoradas
Debandaram, cantando, em noites estreladas...

"Voa a ave no azul e passa longe o amor,
Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!...

"Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d'água,
Cai na desolação desta infinita mágoa!"

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Tremeu, tremeu, tremeu... e caíu silenciosa!...

E algum tempo depois o triste cardo exangue,
Reverdecendo, dava uma flor côr de sangue,

Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito,
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...

E ao cálix virginal da pobre flor vermelha
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!..
.

Guerra Junqueiro - em Os Simples

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18/03/12

OS MEUS POETAS - 244

15/03/12

OS MEUS POETAS -243

Photobucket

A casa onde às vezes regresso
 * Dedicado a CME

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te 

o coração


 José Tolentino Mendonça 

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14/03/12

POEMAS COM ROSAS DENTRO - 104

vale de rosas

Ângelus

    Vê, Platero, quantas rosas caem por todos os lados: rosas azuis, cor-de-rosa, brancas, sem cor...Parece que o céu está se desfazendo em rosas. Vê como se enchem de rosas minha testa, meus ombros, minhas mãos...O que farei com tantas rosas?      Acaso sabes de onde é essa flora delicada, que não sei onde é, que enternece a cada dia a paisagem e a deixa suavemente rosada, branca e azul-celeste – mais rosas, mais rosas – como um quadro de Fra Angélico, aquele que pintava a glória de joelhos?      E ´como se das sete galerias do  Paraíso lançassem rosas à terra. Como neve suave e vagamente colorida, as rosas ficam na torre, no telhado, nas árvores. Vê: tudo o que é forte se abranda com seu adorno. Mais rosas, mais rosas, mais rosas..  Parece, Platero, enquanto soa o Ângelus, que nossa vida perde a força cotidiana e que outra força, de dentro, mais altiva, mais constante e mais pura faz, como em jorro de graça, tudo subir às estrelas que já se acendem entre as rosas...Mais rosas...Teus olhos, que não vês, Platero, e que ergues mansamente para o céu, são duas belas rosas.

 Juan Ramón Jiménez em Platero e Eu
 Tradução de Javier Zabala

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02/03/12

OS MEUS POETAS - 242

silêncio estretas
3

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.

Nem o som da palavra se propaga,
nem o canto das aves milagrosas.
Mas, lá, entre as estrelas, onde somos
um astro recriado, é que se ouve

o íntimo rubor que abre as rosas.


José Saramago

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27/02/12

OS MEUS POETAS - 241

bâteau 4

O barco era belo
rasgaram-lhe as velas,
intrusos cuspiram
no seu tombadilho
e o homem sem barco
seguiu pela estrada
com ondas redondas
rolando nos pés.

Gastou os sapatos
de tanto horizonte,
quis beijar a vida
ninguém o deixou,
quis comer, quis beber,
disseram que não,
sentiu-se doente
mas não tinha cama.

Soprou temporais
no sangue, nas veias,
e todo o seu corpo
foi fúria e foi quilha,
cercaram-no logo
com altos rochedos
e o homem sem barco
teve que evitá-los.

Na estrada sem nada
dos tristes humanos
com pernas-farrapos
o homem lá vai,
sem eira nem beira
de bolsos vazios
com os olhos ocos
marejados de mar.

 
Sidónio Muralha

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16/02/12

OS MEUS POETAS - 239


Lourenço Jograr - Tres moças cantavan d'amor

(Cantiga de Amigo, s.XIII)

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14/02/12

OS MEUS POETAS -237

o que o tempo faz com as
cerejas


Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas
Quando não te doeu acostumar-te a mim,
à minha alma solitária e selvagem,
a meu nome que todo afugentam.
Tantas vezes vimos arder o luzeiro
nos beijando os olhos e sobre nossas cabeças
destorcer-se os crepúsculos em girantes abanos.
Sobre ti minhas palavras choveram carícias.
Desde faz tempo amei teu corpo de nácar ensolarado.
Chego a te crer a dona do universo.
Te trarei das montanhas flores alegres,
copihues, avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos.
Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas.


Pablo Neruda

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06/02/12

DESASSOSSEGOS -132


solidão

solidão...


não creio como eles crêem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam...

morrerei
como eles morrem.  

marguerite yourcenar
fogos
trad. de maria da graça morais sarmento
difel
1995

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30/01/12

OS MEUS POETAS - 235

Douo-2

 Dia e noite

Todo dia ouço o rumor das águas
Em lamento,
Graves como a gaivota, indo
Só, no vento
Que grita ao mar em seu moroso
Movimento.
No vento frio, no vento escuro
Vou-me à toa.
Escuto o manancial que lá do
Fundo escoa.
Dia e noite, escuto-o - indo, vindo,
Ele escoa.
James Joyce
trad. Alípio Correia de Franca Neto;encontrado no blogue  modus vivendi

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23/01/12

OS MEUS POETAS - 234

ítaca

Ítaca

Nunca hubo jardín. Tu nombre
es laberinto y la patria
perdida el hilo roto de tu hija
Adriana que el viento trae
y aleja, uncido ao ritmo
entrecortado de lo vivo: Barre
las hojas de la especie
en tanto que tu pierna
herida de Rimbaud enhebra
de nuevo el camino
de regreso. Nunca hubo jardín
ni patria conocida. Tu nombre
es estela - y lo borran
constantes el viento y las mareas.



Miguel Veyrat in Razón del Mirlo
encontrado em a dispersa palavra http://adispersapalavra.blogspot.com/

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18/01/12

NOCTURNOS - 106

foto de fernand sal monteiro
foto de fernaada sal monteiro

O lago morto


O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens,
A lua.

O murmúrio obstinado que cochicha e passa
(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).
Tão triste agora,
Recai sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.

Minhas pobres alegrias...
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.

Lentamente, a raiz acaba de morrer.

Emily Brontë
(Tradução de Lúcio Cardoso)

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