05/05/12

CAMONIANAS -73

 MACAU-CAMÕES

img: em Macau

De camões, em pura verdade, muito pouco sabemos

    De Camões, em pura verdade, muito pouco sabemos. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu mais pobre ainda (se não miseravelmente), ele, que acumulou bens que milhares e milhares de homens não têm chegado para delapidar. E será difícil exaurir tão fabulosa fortuna. Porque – quem o duvida? – foi Camões que deu à nossa língua este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar de abelhas, esta graça súbita e felina, esta modulação  de vagas sucessivas e altas, este mel corrosivo da melancolia. Daí ser raro o verso português digno de tal nome que as águas camonianas não tenham molhado de luz, desde as mais ásperas das suas consoantes às suas vogais mais brandas.
   Fora do nosso coração, não sabemos onde Camões nasceu; nem o ano ou o dia em que saiu da "materna sepultura" para o primeiro amanhecer. Como não sabemos onde estudou ou quem lhe ensinou o muito que sabia. Nem isso importa. Nalgumas linhas da sua poesia, e sobretudo nas poucas cartas que indubitavelmente são dele, pode ler-se que, como português, encarnou até à medula toda a nossa condição: pobreza, vagabundagem, cadeia, desterro.
"Erros", "má fortuna" e "amor ardente" se conjuraram para fazer daquele alto espírito do  maneirismo europeu uma das figuras mais desgraçadas da via sacra nacional. Por  "erros", talvez se possa entender um cristianíssimo arrependimento daquele marialvismo da sua juventude; a"má fortuna" não pode ter sido senão a de ter vivido num  tempo em que Portugal, além de ser "uma casa sem luz em matéria de ilustração", se preparava fatidicamente  para abandonar todas as suas guitarras nos campos de Alcácer Quibir; quanto ao "amor ardente" - não foi o
próprio Camões que se mostrou dividido entre o límpido apelo dos sentidos e toda uma platonizante teoria de amor bebida em Petrarca e Santo Agostinho?
 Não sabemos também quem o poeta tenha amado, para lá das anónimas "ninfas de água doce" do Mal Cozinhado e outros bordéis de Lisboa. Mas que tais "ninfas" tiveram na sua vida importância, ninguém pode duvidar. As cartas de Camões, e como fonte da sua vida privada nada temos mais seguro, além de nos darem notícia do seu espírito arruaceiro, quase não falam noutra coisa. Que a sua poesia só muito raramente tem a ver com os "pagodes" de Alfama é óbvio, mas dali deve ter partido algumas vezes para, depois de metamorfosesvárias, voar muito alto, como sempre aconteceu, particularmente em herdeiros da cortesia e do "dolce still  nuovo". Porque a verdade é que nenhuma poesia portuguesa partiu tanto dos sentidos para tanto se desprender deles, como a de Camões.

Eugénio de Andrade 

Etiquetas:

07/03/12

CAMONIANAS - 72

camões

              Porque, enfim, tudo passa
                                  não sabe o tempo ter firmeza em nada;
  e nossa vida escassa
foge tão apressada
                            que, quando se começa, é acabada. 
                      (excerto da ode Fogem as neves frias )

Etiquetas:

25/01/12

CAMONIANAS - 71

doces e claras águas do
mondego-eli
foto:eli
Doces águas e claras do Mondego,
doce repouso de minha lembrança
onde a comprida e pérfida esperança
longo tempo após si me trouxe cego;


de vós me aparto; mas, porém, não nego
que inda a memória longa, que me alcança,
me não deixa de vós fazer mudança;
mas quando mais me alongo, mais me achego.

Bem pudera Fortuna este instrumento
d’alma levar por terra nova e estranha,
oferecido ao mar remoto e vento;

mas alma, que de cá vos acompanha,
nas asas do ligeiro pensamento,
para vós, águas, voa, e em vós se banha.

Luís de Camões,Rimas/Sonetos

Etiquetas:

10/12/11

CAMONIANAS - 70

abre a
romã-francis

Abre a romã, mostrando a  rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;
(...)

(Lusíadas, IX,59)
foto de «francis» -http://francislive.multiply.com/

Etiquetas:

21/09/11

CAMONIANAS - 69


retratos
.......................................................................[[Aquela cativa
.................................................................  que me tem cativo...
  
Nova bárbara escrava


Barborinha uma crioula:
Faz de bahiana evocada
Num hotel de vidro e avenca;
Usa torço cor-de-rosa,
Pano-da-costa fingido,
Chambre crivado no seio:
Seu balangandã preserva-a
Bem menos que seu enleio.
Para não ver os meus olhos
– Figa branca, figa preta
- Atira-as pra trás nas costas,
Tão bem, que só vê diante
A cuia do vatapá:
Mas eu sei quantas pancadas,
Vindo assim, seu peito dá.
Peixinho moreno, pula
No aquário do hotel de luxo
Como gota de água ao céu:
Tem vergonha de ser mate,
O seu passo é como um véu.
Barborinha é uma crioula
(Mulatinha era demais):
As cores, à parte, são várias:
Unidinhas, são iguais.
Vem servir-me cor-de-rosa,
Parda me serve xinxim
(Pérfido, atraso o jantar
Fitando-a entro e mim).
Mas o que serve em verdade
A Barborinha
morena,

Na sua saia bahiana 

Com roda de campainha,
Não é o envisco que comem
Os peixes do hotel de vidro,
Mas a sua graça apenas.
Tão quente (sendo ela fria)!
E as mãos! as mãos! – tão pequenas,
Tão pequenas, que eu diria
Que as fazem penas – e fogem
As aves que há na Bahia!



vitorino nemésio

Etiquetas: ,

29/06/11

CAMONIANAS - 68

animais;aves


Está o lascivo e doce passarinho

Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando;
o verso sem medida, alegre e brando,
despedindo no rústico raminho.

O cruel caçador, que do caminho
se vem calado e manso desviando,
com pronta vista a seta endireitando
lhe dá no estígio lago eterno ninho.

Desta arte o coração que livre andava
( posto que já de longe destinado),
onde menos temia, foi ferido.

Porque o frecheiro cego me esperava,
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.

Luís de Camões

Etiquetas:

02/04/11

CAMONIANAS - 67

AUTORES

ODE

Se de meu pensamento
tanta razão tivera de alegrar-me
quanta de meu tormento
a tenho de queixar-me,
puderas, triste lira, consolar-me.

E minha voz cansada,
que noutro tempo foi alegre e pura,
não fora assi tornada,
com tanta desventura,
tão rouca, tão pesada, nem tão dura.

A ser como soía,
pudera levantar vossos louvores;
vós, minha Hierarquia,
ouvíreis meus amores,
que exemplo são ao mundo, já, de dores.

Alegres meus cuidados,
contentes dias, horas e momentos,
oh! quão bem alembrados
sois de meus pensamentos,
reinando agora em mim, duros tormentos!

Ai, gostos fugitivos
ai, glória já acabada e consumida,
cruéis males esquivos,
que me deixais a vida
quão cheia de pesar, quão destruída!

Mas como não é morta
a triste vida já, que tanto dura?
Como não abre a porta
a tanta desventura,
que em vão, co seu poder, o tempo cura?

Mas, para padecê-la,
se esforça meu sujeito e convalece;
que, só para dizê-la,
a força me falece
e de todo me cansa e me enfraquece.

Oh! bem-afortunado
tu, que alcançaste com lira toante,
Orfeu, ser escutado
do fero Radamante,
e cos teus olhos ver a doce amante!

As infernais figuras
moveste com teu canto docemente;
as três Fúrias escuras,
implacáveis à gente,
quietas se tornaram, de repente.

Ficou como pasmado
todo o estígio reino co teu canto;
e, quase descansado,
de teu eterno pranto
cessou de alçar Sísifo o grave canto.

A ordem se mudava
das penas que ordenava ali Plutão,
em descanso tornava
a roda de Ixião,
e em glória quantas penas ali são.

Pelo qual, admirada
a Rainha infernal e comovida,
te deu a desejada
esposa que, perdida,
de tantos dias já tivera a vida.

Pois minha desventura
como já não abranda üa alma humana
que é contra mim mais dura
e mui mais desumana
que o furor de Calírroe profana?

Ó crua, esquiva e fera,
duro peito, cruel, empedernido,
de algüa tigre fera
da Hircânia nacido,
ou dantre as duras rochas produzido!

Mas que digo, coitado,
e de quem fio em voo minhas querelas?
Só vós, ó do salgado,
húmido reino belas
e claras Ninfas, condoei-vos delas

e, de ouro guarnecidas,
vossas louras cabeças levantando
sôbol' água erguidas,
as tranças gotejando,
saí alegres todas ver qual ando.

Saí em companhia
cantando e colhendo as lindas flores;
vereis minha agonia,
ouvireis meus amores,
assentareis meus prantos, meus clamores.

Vereis o mais perdido
e mais mofino corpo que é gerado;
que está já convertido
em choro, e neste estado
somente vive nele o seu cuidado
.
Luís de Camões - Rimas

Etiquetas:

27/03/11

CAMONIANAS - 66

natureza

A formosura desta fresca serra,
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros
Das nuvens pelo ar a branda guerra.

Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos ofrece ,
Me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias mor tristeza.

Luís de Camões -Rimas/Sonetos

Etiquetas:

21/02/11

AO DESCONCERTO DO MUNDO


Luís Vaz de Camões - Rimas

Etiquetas:

04/12/10

BUSQUE AMOR NOVAS ARTES, NOVO ENGENHO

02/09/10

CAMONIANAS - 63



O cisne quando sente ser chegada

O cisne quando sente ser chegada
a hora que põe termo à sua vida,
harmonia maior, com voz sentida,
levanta por a praia inabitada.

Deseja lograr vida prolongada,
e dela está chorando a despedida:
com grande saudade da partida,
celebra o triste fim desta jornada.

Assim, senhora minha, quando eu via
o triste fim que davam meus amores,
estando posto já no extremo fio;

com mais suave acento de harmonia
descantei por os vossos desfavores
la vuestra falsa fé, Y el amor mío.

Luís de Camões

Etiquetas:

10/06/10

No Dia que é de Camões e de Portugal

poetas inspiram-se em Camões

india2

A meretriz de Luís Vaz

- Lá vai a meretriz de Luís Vaz -
Assim rugem as damas invejosas
Almas iradas, hirtas, animosas
de olhar não manifesto mas mordaz

- Lá vai a meretriz - gemem danosas
num múrmure puritano mas audaz
como se só por ser fosse eu capaz
de mover dano em causas amorosas

Morrem de amores por ele, desgraçadas,
e de inveja de mim, porque sou eu
que em meu corpo alugado o seu recebo

São minhas suas noites desgarradas
e o gozo que me compra é sempre meu
pagando sem saber quanto lhe devo


Julieta Lima - 2002

Etiquetas: ,

27/04/10

CAMONIANAS - 62




Quem ora soubesse
Onde o Amor nasce,
Que o semeasse!


De Amor e seus danos
Me fiz lavrador;
Semeava Amor
E colhia enganos;
Não vi, em meus anos,
Homem que apanhasse
O que semeasse.

Vi terra florida
De lindos abrolhos,
Lindos pera os olhos,
Duros pera a vida;
Mas a rês perdida
Que tal erva pace
Em forte hora nace.

Com tanto perdi,
Trabalhava em vão:
Se semeei grão,
Grande dor colhi.
Amor nunca vi
Que muito durasse,
Que não magoasse.

Luís de Camões, Rimas -1595 (1ªed.-póstuma)

Etiquetas:

27/03/10

CAMONIANAS - 61




Pede o desejo, Dama, que vos veja;
Não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
Que, quem o tem, não sabe o que deseja.

Não há cousa, a qual natural seja,
Que não queira perpétuo o seu estado;
Não quer logo o desejo o desejado,
Por que não falte nunca onde sobeja.

Mas este puro afeito em mim se dana;
Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da Natureza,

Assi o pensamento, pela parte
Que vai tomar de mim, terrestre, humana,
Foi, Senhora, pedir esta baixeza.


Luís de Camões -Sonetos

Etiquetas:

26/01/10

CAMONIANAS - 60



Correm turvas as águas deste rio,
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.

Passou o Verão, passou o ardente Estio,
Úas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece
.


Luís de Camões, Rimas

Etiquetas:

12/01/10

CAMONIANAS - 59



Pastora da Serra

MOTE

Pastora da serra
da serra da Estrela,
perco-me por ela.

VOLTAS

Nos seus olhos belos
tanto Amor se atreve,
que abrasa entre a neve
quantos ousam vê-los.
Não solta os cabelos
Aurora mais bela:
perco-me por ela.

Não teve esta serra
no meio da altura
mais que a fermosura
que nela se encerra.
Bem céu fica a terra
que tem tal estrela:
perco-me por ela.

Sendo entre pastores
causa de mil males,
não se ouvem nos vales
senão seus louvores.
Eu só por amores
não sei falar dela:
sei morrer por ela.

De alguns que, sentindo,
seu mal vão mostrando,
se rim*, não cuidando
que inda paga, rindo.
Eu, triste, encobrindo
só meus males dela,
perco-me por ela.

Se flores deseja
por ventura, belas,
das que colhe, delas,
mil morrem de enveja.
Não há quem não veja
todo o milhor nela:
perco-me por ela.

Se na água corrente
seus olhos inclina,
faz luz cristalina
para a corrente.
Tal se vê, que sente,
por ver-se, água nela:
perco-me por ela.

Luís de Camões,Rimas
* se rim :se ri

Etiquetas:

16/11/09

CAMONIANAS - 58



img.Eugene on Blass - pormenor

A uma Fuã Gonçalves
Mote seu

Com vossos olhos Gonçalves,
Senhora, cativo tendes
este meu coração Mendes
.

Volta

Eu sou boa testemunha
que Amor tem por cousa má
que olhos, que são homens já,
se nomeiem sem alcunha;
pois o coração apunha,
e diz: «Olhos, pois vós tendes,
chamai-me coração M
endes.»

Luís de Camões, Rimas

Etiquetas:

06/09/09

CAMONIANAS - 57


POETAS CANTAM CAMÕES

Camonocórdia num cais de Lisboa

A rocha de cristal, Camões. Nós outros,
Irisações de sol, pobre poeira.
Língua que foste de uns e foste de outros,
Língua de continentes, marinheira,
Língua de Brancos, Negros e ainda outros,
Que bom haver quem como nós te queira!

Pintores, músicos e artistas outros
Entendidos serão na terra inteira,
Léguas e léguas de países outros.
Poetas, não. A Língua é prisioneira.
A voz com que cantamos, uns e outros,
Será sempre aos de além voz estrangeira.

Filhos do burgo ocidental, nós outros,
Fiéis a tanto afã, tanta canseira,
Ao bem da fama como a tantos outros
Sabemos renunciar de alma fagueira:
Em paga deste amor, maior que os outros,
Baste o poder cantar de tal maneira.

Ribeiro do Couto (em Longe, Livros do Brasil, 1961)

Etiquetas:

10/06/09

EM DIA DE CAMÕES - E DE PORTUGAL





Em Dia que é, acima de tudo, o Dia de Camões – vamos lê-lo, que é o melhor modo de homenagear o «poeta de todos os poetas»*



A üa dama por quem penava

Se n' alma e no pensamento
por vosso me manifesto
não me pesa do que sento;
que, se não sofrer tormento,
faço ofensa a vosso gesto.
E pois quanto Amor ordena
e quanto esta alma deseja
tudo à morte me condena,
não quero senão que seja
tudo pena, pena, pena.

Luís de Camões-Rimas-Redondilhas
*no dizer / cantar de Sérgio Godinho

Etiquetas: ,

06/06/09

CAMONIANAS - 55



Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria:
Cá onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, e o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a desengana;

Cá, neste labirinto, onde a nobreza
Com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;

Cá neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!


Luís de Camões , Rimas - ed. de 1616
Em Camões:Babilónia=mal presente; Sião=tempo passado

Etiquetas:

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com Licença Creative Commons