30/04/12

LEITURAS - 185

ler

[de O Jogador]
«De uma só vez, apostei vinte fredericos nos pares e ganhei. Voltei a apostar cinco e ganhei de novo. E assim duas ou três vezes mais. Creio que juntei uns quatrocentos fredericos em cerca de cinco minutos. Deveria ter-me retirado então, mas brotou em mim uma sensação estranha, como um desejo de desafiar o destino, de dar-lhe uma bofetada, [...].»

Dostoiewski, O Jogador 
– colocado por eli em http://novelosdesilencio.blogspot.com

Etiquetas:

01/04/12

LEITURAS - 184

o monte dos vendavais

[O monte dos Vendavais -excertos]

Hindley entrou, vociferando blasfêmias horríveis de ouvir-se, e surpreendeu-me no ato de esconder seu filho no armário da cozinha. Quer tivesse de suportar a ternura de besta selvagem de seu pai ou suas raivas de louco, Hareton sentia sempre um terror salutar; porque, num caso, corria o perigo de ser sufocado por seus beijos, e noutro, o de ser lançado no fogo ou arrojado de encontro à parede. Por isso, o coitadinho ficava bem quietinho em qualquer lugar onde me desse a veneta de colocá-lo.

- Afinal, descobri o que queria - exclamou Hindley, puxando-me para trás pela pele do pescoço, como a um cão. - Pelo céu e pelo inferno, vocês juraram dar cabo dessa criança! Compreendo agora porque nunca o encontro. Mas, com o auxílio de Satanás, far-te-ei engolir a faca de trinchar, Nelly!
(...) - Mas eu não gosto da faca de trinchar, Sr. Hindley - respondi eu. - Serviu para cortar os arenques fumados. Preferiria ser fuzilada, se me quisesse fazer esse favor.
- O que você preferiria é danar-se! - disse ele. - Pois irá para o inferno. Nenhuma lei da Inglaterra existe que possa impedir um homem de conservar sua casa com decência, e a minha é abominável! Abra a boca!
Agarrou a faca e meteu-lhe a ponta entre meus dentes. Mas, pela minha parte, nunca tive muito medo de suas extravagâncias. Cuspi, dizendo que a faca estava com um gosto detestável... e que não a engoliria de jeito nenhum.
- Oh! - disse ele, largando-me - reparo agora que essa horrível coisinha ordinária não é Hareton. Peço-lhe perdão, Nelly. Se fosse ele, mereceria ser esfolado vivo por não ter corrido ao meu encontro para dar-me bom dia e por ter-se posto a gritar, como se eu fosse um fantasma. Vem cá, cachorrinho desnaturado! Vou-te ensinar a enganar o bom coração de um pai ludibriado. Diga-me, não acha que o garoto ficaria mais bonito com as orelhas cortadas? Isto faz os cachorros ficarem mais ferozes e eu gosto de um pouco de ferocidade... dê-me uma tesoura... um pouco de ferocidade e de elegância! Quanto mais, isso de ter tanto apego às orelhas é uma afetação dos infernos... é uma vaidade diabólica... somos bastante burros mesmo sem elas. Cala a boca, menino, cala a boca! Está bem, está bem, meu queridinho! Vamos, enxuga os olhos... alegra-te. Beija-me! Quê?! Não queres? Beija-me, Hareton! Que o diabo te leve, beija-me! Por Deus! Vá eu perder tempo a educar um monstro dessa ordem! 

Emily Brontë - O monte dos vendavais

Etiquetas:

25/03/12

ANTONIO TABUCCHI, O MAIS PORTUGUÊS DOS ESCRITORES ITALIANOS

antonio tabucchi
A mulher de Porto Pim
(excerto)

Todas as noites canto, porque sou pago para isso, mas as canções que ouviste eram pézinhos e sapateiras para os turistas de passagem e para aqueles americanos que se estão a rir lá ao fundo e que daqui a pouco se vão embora aos ziguezagues. As minhas verdadeiras canções são só quatro chama-ritas, pois o meu repertório é escasso, e depois eu estou a ficar velho, e fumo de mais e a minha voz está rouca. Tenho de vestir este balandrau açoreano que se usava em tempos, porque os americanos gostam do pitoresco, depois voltam para o Texas e contam que estiveram numa tasca, numa ilha perdida, onde um velho com uma capa cantava o folclore do seu povo. Querem a viola de arame que dá este som de feira melancólica, e eu canto-lhes modinhas pirosas onde a rima é sempre a mesma, mas tanto faz, eles não percebem e, como vês, bebem gin tónico. Mas tu, o que é que procuras, que todas as noites vens aqui? Tu és curioso e procuras outra coisa, porque é a segunda vez que me convidas a beber, mandas vir vinho «de cheiro» como se fosses dos nossos, és estrangeiro e finges falar como nós, mas bebes pouco e depois ficas calado e esperas que fale eu. Disseste que és escritor e, no fundo, talvez a tua profissão tenha alguma coisa a ver com a minha. Todos os livros são estúpidos, há sempre pouco de verdadeiro neles, e contudo li muitos nos últimos trinta anos, mesmo italianos, naturalmente todos traduzidos, aquele de que mais gostei chamava-se Canaviais no vento, de uma tal Deledda, leste-o? E depois tu és jovem e gostas de mulheres, bem vi como olhavas para aquela mulher muito bonita com o pescoço alto, olhaste para ela toda a noite, não sei se estás com ela, também ela olhava para ti e talvez te pareça estranho, mas tudo isto acordou em mim qualquer coisa, deve ser porque bebi de mais. Sempre escolhi o demais na vida e isto é uma perdição, mas não há nada a fazer quando se nasce assim.

(...)

Nota pessoal:
É esta a minha homenagem, pequena, ao grande escritor italiano hoje falecido. Um dia ele contou que, estando como adido cultural em Espanha, encontrou numa estação um  um pequeno livro, de um tal Álvaro de Campos, intitulado de Bureau de Tabac. Comprou, leu, e de imediato pediu transferência para Lisboa que viria a ser, em boa parte, como para Fernando Pessoa, o seu «lar» - onde morreu hoje e vai ser sepultado. Aqui casou com Maria José Lencastre. Os dois traduziram para italiano a Poesia de Fernando Pessoa - com o título Una sola multitudine. Pessoa, de resto, teria influência sobre a sua própria obra romanesca.O primeiro livro que dele li foi justamente este, de que publico um pequeno extracto.Em tempos passei-o, integral, na Prosa da semana.Depois, continuei a lê-lo sempre com muito agrado.Um dos seus livros, Afirma Pereira daria lugar a um filme de Manoel de Oliveira, em que participou, entre outros, Marcello Mastroiani - que seria o seu último filme.Creio também que um outro dos seus livros, Nocturno Indiano, daria lugar a um filme.

Etiquetas: ,

16/03/12

LEITURAS - 182

Tofo-Moçambique
[Sou uma ilha pequena]


«Às vezes não te compreendo bem.»
«Sou uma ilha pequena, Paula.» Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas. Estivera um dia numa ilha assim…
A voz de Paula ria na sua sala, no seu divã. «Todos o somos, não és original.»
«Mas eu sou aquela ilha.»
Pequena e com praias de cascalho, não muito belas, e voltadas para oriente. O sol abandonava-as a meio da tarde e então fazia frio e a água ainda há pouco morna e confortável tornava-se gélida, matéria opaca, cheia de vida, de morte e de mistérios. Só havia uma coisa a fazer, subir, subir à procura de um resto de sol. Mas do lado ocidental era o reino das gaivotas e dos rochedos a pique. Coisas só para olhar. Ruídos que eram silêncio. E acabava sempre por regressar à tenda onde estava acampada com uns amigos. Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir.
«Mas a tua vida é que é uma ilha, não tu.»
«Sim, a minha vida», concordou Jô. 
«Mas o que sou eu sem a minha vida, o que somos nós sem ela?»
«Bem, é tarde, vou deitar-me», disse Paula.
 «E o teu caso, na mesma?»

Maria Judite de Carvalho

Etiquetas:

24/02/12

LEITURAS - 181


musil


[o cão que traz um pau na boca]

«Um grande inventor respondeu um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas:’pensando ininterruptamente nelas’. E de facto bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São, em grande parte, o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio, uma perseverança assim! Mas vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco […]; de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo facto de as ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor.»

Musil   - em O Homem Sem Qualidades 
trad. João Barrento

Etiquetas:

13/02/12

LEITURAS - 180



Esta é a verdadeira história de Zé Petinga, o homem que não parava de escrever. Filho do mar e da terra, fora pescador nas horas vagas e amante de baronesas a tempo inteiro. Conheciam-se-lhe para cima de mil relações afectivas, todas elas tão turbulentas como uma maré em noite de lua cheia. Certo dia partiu na direcção do horizonte e nunca mais alguém o viu. Regressou ninguém sabe de onde, nem com que histórias sobre os ombros. Andava aos ésses, a cada passo para a frente era homem para dar dois atrás. Só se sabia que estava diferente, com as palmas das mãos calejadas pela vida e os pés feridos de um gelo impassível. Conta-me o Galego que a última vez que o ouviu falar foi numa tarde de ventania, à marginal, cada um na sua margem e em direcções opostas. De uma margem, o Galego perguntou: ó Petinga, de que lado vem o vento? E na outra margem, o Petinga olhou para a esquerda, olhou para a direita, olhou para o alto, olhou na direcção dos pés e respondeu: ó Galego, acho que vem de cima para baixo. Desde então, não mais se soube para que direcções penderam os dedos marginais do pescador. Sabe-se apenas que mordeu o isco da palavra como um peixe incauto morde a minhoca. Ficou com a garganta presa ao anzol das letras. A toda a hora o Zé Petinga escreve, escreve, escreve e redemoinha sobre o que escreve escrevendo. Tem milhares de páginas manuscritas, arrumadas em caixotes que lhe atafulham o quarto onde já nem dorme só para poder continuar a escrever. Vive sozinho com os seus caixotes de palavras, frases inteiras, poemas, contos, páginas sem nexo aparente, saídas dos dedos ao ritmo da água numa nascente. Zé Petinga não pára de escrever. E se pára, é para beber um café e fumar um cigarro, que carne não come e peixe enjoou. Vive do fumo e da cafeína, numa divisão onde cabem um sofá, um fogão e umas escadas que dão para a cama ao lado da qual, debaixo da qual, sobre a qual, se acumulam dezenas de caixotes com milhares de páginas escritas. Tem livros inteiros, obras incomensuráveis, espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Manda caixotes na direcção de Alexandria ao cuidado de Bibliotecas que jamais alguém saberá se existem, envia para as ex-amantes, as baronesas, fragmentos que são enciclopédias inteiras de pensamentos sobre pensamentos, dentro de outros pensamentos no imo dos quais muitos mais pensamentos medram. Zé Petinga escreve sem parar, todas as suas páginas juntas davam para fazer um lençol que atravessaria o planeta com a maior das facilidades. Se tal fosse possível, é bem provável que todas as páginas escritas até hoje por Zé Petinga dariam para embrulhar o planeta como uma múmia embrulhada em linho. O que intriga toda a gente, o que estimula desconfiança, o que gera discussão é de onde lhe vem ou onde vai ele beber esse mel mágico da chamada inspiração. Pode a vida de um único homem sustentar tanta folha? Sobre o que escreve o homem que não pára de escrever? É natural que, a páginas tantas, se lhe esgotem os recursos, fique seco de ideias, perca o caudal da existência. Mas o homem que não pára de escrever escreve sem parar, como se nada mais existisse senão ele e aquele acto de escrever. Podia escrever sempre a mesma palavra ou letras desconexas ou nada que se lesse, mas não é esse o caso. Dá-se inclusive o inusitado de já terem sido avistados textos seus, páginas marcadas pela sua laboriosa caligrafia, em alfarrabistas de várias partes do mundo. Este homem não escreve apenas sobre o acto de escrever, ele escreve como quem respira e sabe todo aquele que respira que nem sempre um homem respira da mesma maneira. A cada inspiração corresponde uma expiração diversa. Talvez seja sobre este mecanismo que o homem que não pára de escrever escreve, porque ele escreve com os cigarros queimando-se entre os dedos e largando cinza sobre a tinta da esferográfica, à luz de velas confeccionadas com cera gamada nas igrejas das redondezas, ele escreve com a caneca de café ao lado das folhas, sentindo aquele momento em que o cheiro do tabaco se imiscui com o aroma do café e os vapores pulverizam o ar que se respirar e sobre o qual se escreve. Um homem pode não viver do ar, mas Zé Petinga vive literalmente de escrever.

Etiquetas: ,

09/02/12

LEITURAS -179

fonte

[Voltou a ser água]

Chamavam-lhe Zé da Fonte. Todos os dias, mal o sol acordava, caminhava até à nascente modesta, escondida por entre pedras gastas e ramadas pendentes. Ajoelhava-se e lavava os olhos, longamente, com as mãos inundadas de água fria. Depois tirava do bolso um naco de pão que mastigava devagar, muito devagar. Já de pé, dizia baixinho: Até amanhã, Mãe. 

Ninguém lhe conhecia família. Não se poderia dizer que idade tinha. Caminhava aos saltinhos como um rio sobre leito pedregoso. Havia quem o temesse. Havia quem o adorasse. Por uns dias ninguém o viu. Procuraram em redor da fonte. Nem rasto.
Um corpo apareceu a boiar no ponto em que o ribeiro que nascia da fonte se encontrava com outro ribeiro nascido de outra fonte. As pessoas ficaram pesarosas. Coitado do Zé da Fonte. Como foi que sucedeu? Só a Rosa Maria, que também caminhava aos saltinhos e tinha olhos cor de musgo, soube explicar, na sua voz murmurante: Voltou a ser água. Um homem tem de cumprir o seu destino.

Licínia Quitério
publicado no Facebook

Etiquetas:

03/02/12

LEITURAS - 178

Photobucket
marc chagall,the blue lovers
O nascimento do prazer

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protectora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protector, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.

Clarice Lispector

Etiquetas: ,

21/01/12

LEITURAS - 177

Photobucket

... "A mão corria-lhe tremente abaixo e acima no braço do violino e na tarde que se evolava, uma música suave e longa e misteriosa como não sabia o quê. Evoco agora essa música e também não sei. Qualquer coisa me arrepia e suspende, sobe em mim até um limite e desce de novo e alastra como a imensidade de um mar. Depois ergue-se de novo, arranca ainda até ao impossível, quebra de novo num repouso espraiado. Música do meu abismo, ó mistério inacessível e tão perto da minha comoção. Ardem-me os olhos agora que a evoco, ao anúncio indistinto da amargura e da paz. Deve ser isso a oração, mas nunca rezei assim. Uma ascenção de nós, um esvaimento de nós e uma força humana, todavia, numa irmanação divina. Sol que se levanta ou uma lua enorme e clara num céu imenso e intensamente escuro, ou um mar aberto até ao infinito de nós..."

 Vergílio Ferreira - in "Para Sempre" 

Etiquetas:

10/01/12

LEITURAS - 176

Rachel_Giese.jpg

190

____________ Estas árvores balouçam na sua hesitação
Mas prosseguem. Os ramos mais altos precipitam-se,
Abrem no ar pousadas. Os mais baixos ocupam. Sol não
Falta. Há apenas a curva do caminho com incidências
Drásticas na sua respiração. Sim, há ainda as concorrentes,
As sementes ininterruptas, e o incompreensível desprezo
Dos humanos. Parasceve não diz. Se o cortarem, não
Reagirá. «Por que não entendeis a leveza de prosseguir?»


maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso

Encontrado em canaldepoesia.blogspot.com

Etiquetas:

03/01/12

LEITURAS - 175

Photobucket
magritte

É vão acreditar-se - escreveu ela - que o amor possa advir de uma comunhão de espíritos, de pensamentos; é a explosão simultânea de dois espíritos empenhados no acto independente de se expandirem. E a sensação é a de que alguma coisa explodiu dentro deles, silenciosamente. Em torno deste acontecimento, assombrado e apreensivo, o apaixonado ou a apaixonada continua a viver examinando a sua própria experiência; apenas a gratidão cria nela a ilusão de que comunica com o seu amigo, mas é falso, porquanto ele nada lhe deu. O objecto amado é, simplesmente, aquele que viveu uma experiência igual no mesmo instante, como um Narciso; e o desejo de estar junto do objecto amado é devido, em primeiro lugar, não à ideia de possuí-lo, mas, simplesmente, de permitir a comparação entre as duas experiências, como a mesma imagem vista em espelhos diferentes. Tudo isto pode preceder o primeiro olhar, o primeiro beijo, o primeiro contacto; preceder a ambição, o orgulho e a cobiça; preceder as primeiras declarações que assinalam o ponto de viragem - pois a partir daqui o amor degenera em hábito, em posse e ... em solidão.

Lawrence Durrel 

Etiquetas: ,

14/12/11

LEITURAS - 174

o vestido vermelho

Enterra-se uma mulher às duas horas, e às onze e meia o marido encontra-se na cozinha, em frente do espelho rachado, pendurado sobre o lavadoiro da louça. Não chorou muito. Se tem os olhos vermelhos é porque não dormiu quase nada. Veste uma camisa de goma e um vaporzinho leve lhe sai ainda das calças passadas a ferro há pouco. Enquanto a irmã mais nova lhe aperta o colarinho por trás e lhe faz subir o laço da gravata sob o queixo, com um gesto quase tão terno como uma carícia, o viúvo dobra-se para a pia da louça e perscruta ardentemente os seus olhos no espelho; em seguida passa a mão sobre as pálpebras como quem enxuga uma lágrima; mas as costas da mão continuam secas. A mão da irmã mais nova, a irmã bonita, demora-se uns segundos, imóvel, debaixo do queixo dele. O laço da gravata, branco como a neve, destaca-se-lhe na pele avermelhada. Ele acaricia-lhe furtivamente a mão. A irmã bonita é a que ele ama. Ama a beleza. A mulher era feia e doente, por isso a não chorou.


Stig Dagerman - O Vestido Vermelho,
Tradução de Irene Lisboa
 encontrado em  http://locainfecta.blogspot.com/

Etiquetas:

20/11/11

LEITURAS - 176


Crónica de uma morte anunciada
«No dia em que iam matá-lo, Santiago Na­sar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonha­do que atravessava uma mata de figueiras­-bravas, onde caía uma chuva miúda. e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acor­dar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros.
" Sonhava sempre com árvores", disse-me a mãe, Plácida Linero, recordando 27 anos de­pois os pormenores daquela segunda-feira ingrata. "Na semana anterior tinha sonhado que ia sozinho num avião" de papel de estanho que voava sem tropeçar por entre as amendoeiras,- disse-me. Tinha uma reputação bastante bem ganha de intérprete certeira dos sonhos alheios, desde que lhos contassem em jejum, mas não descobrira qualquer augúrio aziago nesses dois sonhos do filho, nem nos restantes.»
Gabriel Garcia Marquez
Primeira página de Crónica de uma morte anunciada, 1988

Etiquetas:

29/10/11

LEITURAS - 175


Janela dita da alma

Uma vez irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma desta vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos, com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria...


clarice lispector

Etiquetas:

16/10/11

AVISO

Etiquetas:

06/10/11

LEITURAS - 174


ler

De uma só vez, apostei vinte fredericos nos  Pares e ganhei. Voltei a apostar cinco e ganhei de novo. E assim duas ou três vezes mais. Creio que juntei uns quatrocentos fredericos em cerca de cinco minutos. Deveria ter-me retirado então, mas brotou em mim uma sensação estranha, como um desejo de desafiar o destino, de dar-lhe uma bofetada, [...].
Dostoiewski, O Jogador 
colocado por eli em http://novelosdesilencio.blogspot.com

Etiquetas:

25/09/11

LEITURAS - 173

marinhas

 [Sou uma ilha pequena]

«Às vezes não te compreendo bem.»
«Sou uma ilha pequena, Paula.» Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas. Estivera um dia numa ilha assim…
A voz de Paula ria na sua sala, no seu divã. «Todos o somos, não és original.»«Mas eu sou aquela ilha.»Pequena e com praias de cascalho, não muito belas, e voltadas para oriente. O sol abandonava-as a meio da tarde e então fazia frio e a água ainda há pouco morna e confortável tornava-se gélida, matéria opaca, cheia de vida, de morte e de mistérios. Só havia uma coisa a fazer, subir, subir à procura de um resto de sol. Mas do lado ocidental era o reino das gaivotas e dos rochedos a pique. Coisas só para olhar. Ruídos que eram silêncio. E acabava sempre por regressar à tenda onde estava acampada com uns amigos. Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir.«Mas a tua vida é que é uma ilha, não tu.»«Sim, a minha vida», concordou Jô. «Mas o que sou eu sem a minha vida, o que somos nós sem ela?»«Bem, é tarde, vou deitar-me», disse Paula. «E o teu caso, na mesma?» 

Maria Judite de Carvalho 

Etiquetas:

17/09/11

LEITURAS - 172

navegante


Navegante


O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas; é que, da nossa própria prisão, conseguimos extrair, de dentro de nós mesmos, imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância.

André Malraux


Etiquetas:

07/09/11

LEITURAS - 171


autores


Enterrei hoje minha mulher - porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-Ia para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: «Verei dali a janela do meu quarto.» Mas teria de transportá-Ia para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro, talvez, ou Janeiro. Tiro a neve com uma pá, traço o rectàngulo e cavo. Dois cães assomam à porta do quintal, chupados de ódio e de fome. Ainda há cães pela aldeia? Babam-se e uivam sinistramente. Tomo uma pedra. disparo-a contra um, desaparecem ambos a ganir. E de novo o silêncio cresce a toda a volta, desde a montanha que fico a olhar até me doerem os olhos. Olho-a sempre, interrogo-a. Quando estou cansado de cavar, enxugo o suor e olho:.a ainda. Um diálogo ficou suspenso entre nós ambos, desde quando? - desde a infância talvez, ou talvez desde mais longe. Um diálogo interrompido com tudo o que aconteceu e que é necessário liquidar, saldar de uma vez. Estou só, horrorosamente só, ó Deus, e como sofro. Toda a solidão do mundo entrou dentro de mim. E no entanto, este orgulho triste, inchando - sou o Homem! Do desastre universal, ergo-me enorme e tremendo. Eu. Dois picos solitários levantam-se-me adiante, lá longe, trémulos no silêncio. 
Entre eles e a aldeia há um vazio escavado na montanha. donde sobem as sombras e a neblina. Pela manhã a névoa infiltra-se pelos desfiladeiros,[...]

Vergílio Ferreira, Alegria Breve

Etiquetas:

26/08/11

LEITURAS - 170




Um dia, já eu era velha, um homem dirigiu-se-me à entra­da de um lugar público. Deu-se a conhecer e disse-me: ­
- «Conheço-a desde sempre. Toda a gente diz que você era bonita quando era nova, vim dizer-lhe que, para mim, acho-a mais bonita agora do que quando era jovem, gostava menos do seu rosto de mulher jovem do que daquele que tem agora, devastado. »
Penso frequentemente nesta imagem que sou a única a ver ainda e de que nunca falei. Está sempre aí no mesmo silêncio, deslumbrante. É, de todas, a que me agrada de mim própria, onde me reconheço, onde me encanto.
Muito cedo na minha vida foi tarde de mais. Aos dezoito anos era já tarde de mais. Entre os' dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoi­to anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a ...
Marguerite Duras - O Amante (1984) - 1ª página
recolhida por JMA em http://terrear.blogspot.com

Etiquetas:

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com Licença Creative Commons