30/06/09

LI E RECOMENDO - 8





Este nosso amigo foi premiado no concurso do Clube Racal de Silves em 2007, com o 1º prémio, por Pastoreio, e menção honrosa com Errar.
Os dois livros estão reunidos num só com o título de Pastoreio.
Dele transcrevo o 1º poema:

Fui guardador de rebanhos sem flauta, sem outeiro
com páginas colhidas a eito, em linhas altas lidas
quando descansava o rebenho e a paisagem tinha
[escritas,árvores ao sol. frutos ardidos, poeira
[de brisa,manga curta camisa desfraldada

eu, na sombra recolhido.

José Ribeiro Marto, Pastoreio
ed.temas originais, 2009

O nosso amigo e companheiro de viagens gere o blogue vá andando- http://vaandando.blogspot.com/2009/06/

Etiquetas: ,

29/06/09

«É a paisagem mais maravilhosa que vi na minha vida»



pôr do sol em Patras, Grécia


«É a paisagem mais maravilhosa que vi na minha vida»


«
Piso às quatro e meia a terra grega. Entrada maravilhosa à saída de Patras. Vamos rente ao mar entre oliveiras e ciprestes e montanhas azuladas. Calor leve, ar perfumado. As montanhas ligam a terra ao Olimpo. Paramos e vou molhar os pés, as mãos, os braços e a cara no mar. A água é maravilhosa, transparente e fresca. Bebo-a. É muito salgada. É a paisagem mais maravilhosa que vi na minha vida.»

Sophia Andresen

* Patras fica no Peloponeso; atravessava-se antes,talvez na altura desta viagem de Sophia, em ferry; actualmente uma ponte liga o Peloponeso à parte continental.

Etiquetas:

PÉROLAS- 166




A solidão era eterna
e o silêncio inacabável.
Detive-me com uma árvore
e ouvi falar as árvores.

Juan Ramón Jiménez

Etiquetas: ,

28/06/09

LEITURAS - 113


foto:cartier-bresson

O Jogo


Não se olhavam. Na partilhada penumbra ambos estavam sérios e silenciosos. Ele tinha-lhe pegado na mão esquerda e tirava-lhe e punha-lhe o anel de marfim e o anel de prata.

A seguir pegou-lhe na mão direita e tirou-lhe e pôs-lhe os dois anéis de prata e o anel de ouro com pedras duras.

Ela estendia alternadamente as mãos.

Aquilo durou algum tempo. Foram entrelaçando os dedos e juntando as palmas das mãos.

Procediam com lenta delicadeza, como se temessem enganar-se.

Não sabiam que era necessário aquele jogo para que determinada coisa acontecesse, no futuro, em determinada região.

jorge luís borges - história da noite
obras completas III - círculo de leitores

Etiquetas:

27/06/09

PENSAR - 96



Ao mesmo tempo que a realidade é uma fábula, simulações e enganos são considerados como as verdades mais sólidas. Se os homens se detivessem a observar apenas as realidades, e não se permitissem ser enganados, a vida, comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou histórias das Mil e Uma Noites.Se respeitássemos apenas o que é inevitável e tem direito a ser, a música e a poesia ressoariam pelas ruas afora. Quando nos mantemos calmos e sábios, percebemos que só as coisas grandes e dignas têm existência permanente e absoluta. Que os pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombra da realidade, o que é sempre estimulante e sublime. Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem ser enganados pelas aparências, os homens por toda parte estabelecem e confinam suas vidas diárias a rotinas e hábitos erguidos em fundações puramente ilusórias.
Henry David Thoreau,in 'Walden'

Etiquetas:

POEMAS COM ROSAS DENTRO - 70



As rosas de Saadi

Queria de manhã trazer-te algumas rosas;
Mas na cintura as recolhi tão numerosas
Que o laço que amarrei não as pôde encerrar.

O laço se desfez. Levadas pelo vento,
As rosas para o mar se foram num momento;
E nas águas se vão pra nunca mais voltar;

O mar me pareceu rubro, como incendido.
É noite e perfumado ainda está meu vestido...
O cheiro da lembrança em mim hás de encontrar.


Marceline Desbordes-Valmore

Etiquetas:

26/06/09

DESASSOSSEGOS -91



foto de tiago pais-em wadi rum-jordânia

nenhum deserto me incendeia o olhar. nenhuma raiz me amarra o coração. quem recolheu o que em lugares assim deixei?

gil t. sousa
em http://falsolugar.blogspot.com/

Etiquetas: ,

25/06/09

Para nós, que gostamos de árvores... e em especial para quem fez a foto...


foto:ana assunção

Etiquetas:

24/06/09

OS MEUS POETAS - 112



Inútil é que te aflijas:
nada podes acerca do teu destino.
Se és prudente, aproveita o momento actual.
O futuro?
Sabes o que ele te reservará?...

Omar Kháyyám
tradução de Cecília Meireles

Etiquetas:

23/06/09

LI E RECOMENDO -7












Na verdade não li - reli - este livro extraordinário que tinha lido há uns 20 anos, na sua 1ªedição - da Teorema - e que, suponho, foi recentemente re-editado. Ele é a outra face do despotismo europeu no s.XX: - o nazismo e os campos de concentração... O outro, o dito «socialista», o dos gulags, tem o seu contraponto no livro, também já aqui recomendado, Um dia na vida de Ivan Desinovitch .

SE ISTO É UM HOMEM


Vós que viveis tranquilos.
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
(...)
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
repeti-as aos vossos filhos.
(...)
[introdução de Primo Levi]

Etiquetas: ,

22/06/09

PÉROLAS - 165


[clicar sobre a imagem para aumentar]

Etiquetas: ,

NOCTURNOS - 69



Sou homem: duro pouco...
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Octávio Paz

Etiquetas: ,

21/06/09

NESTE PRIMEIRO DIA DE VERÃO




Eros


Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?

Eugénio de Andrade
em Mar de setembro

Etiquetas: ,

OMNIA VINCIT AMOR -125


carraci-pormenor

Os Teus Olhos


Quando se esgotaram os caminhos

que a razão poderia aconselhar-nos

abrem-se os teus olhos, e com eles tudo

volta a inundar-se da luz escura

que dá sentido ao mundo e à minha vida.


Amalia Bautista

Etiquetas:

20/06/09

LER OS CLÁSSICOS - 111










Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci : oh quem cuidara
que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logio render-me; ele daclara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano.

Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei que amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.

Cláudio Manuel da Costa, Sonetos (1768)

Etiquetas:

19/06/09

NOCTURNOS - 68



Notas para o diário

.deus tem que ser substituído rapidamente
[por poemas, sílabas sibilantes,

[lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
[ vivos e limpos.
.
a dor de todas as ruas vazias.
.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada

[deste silêncio.
E na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo,

[ e de acabar comigo mesmo.
.
a dor de todas as ruas vazias.
.
mas gosto da noite e do riso das cinzas.
gosto do deserto, e do acaso da vida.
gosto dos enganos, da sorte e dos encontros

[inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado
do
[meu coração,
ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
.
a dor de todas as ruas vazias.
.
pois bem, mário –
o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata

[do alfeite.
Basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro,

[e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer:
daqui ninguém sei sem cadastro.
.
a dor de todas as ruas vazias.

.
.
Al Berto

Etiquetas: ,

18/06/09

PÉROLAS - 164



A Tarde


Rodam as ondas frágeis
dos entardeceres
como limpas canções de mulheres.

José Gorostiza

Trad. de Horácio Costa
foto in http://aguarelast.blogspot.com/

Etiquetas:

17/06/09

POEMAS COM ROSAS DENTRO - 69












[Composto para o seu epitáfio]

Rosa, ó pura contradição,
prazer de ser o sono de ninguém
sob tantas pálpebras.

Rainer Maria Rilke
trad. de José Paulo Paes

Etiquetas: ,

16/06/09

DO FALAR POESIA - 98



O Dom da Poesia


(Fragmento)

Deixa a palavra escorregar,
Como um jardim o âmbar e a cidra,
Magnânimo e distraído,
Devagar, devagar, devagar.

Boris Pasternak ,1917
Trad. Haroldo de Campos

Etiquetas:

15/06/09

POETAS MEUS AMIGOS - 107





* Benção*


no templo da
sua ausência
abençoa-me a
vã delicadeza
de todos os
adeuses

Sandra Baldessin

Etiquetas:

14/06/09

DA EDUCAÇÃO - 51

Mafalda e a escola (Quino)

[Fazer clic ou zoom sobre a imagem para aumentar]

Etiquetas: ,

OMNIA VINCIT AMOR -124



fastos

O Verão cantava sobre a sua rocha preferida
quando tu me apareceste,

o Verão cantava afastado de nós
que éramos silêncio,
simpatia, liberdade triste,
mar
mais ainda do que o mar,
cuja enorme comporta azul
brincava aos nossos pés.

O Verão cantava
e o teu coração nadava longe dele.
Eu beijava a tua coragem,
entendia a tua perturbação.


Estrada através do absoluto das vagas
em direcção a esses altos picos de escuma
onde navegam virtudes assassinas
para as mãos que seguram as nossas casas.

Não éramos crédulos.
Éramos rodeados.

Os anos passaram.
As tempestades morreram.
O mundo partiu.

Sofria
por sentir que era o teu coração que já não me conhecia.

Eu amava-te.
Na minha ausência de rosto e no meu vazio de felicidade.

Eu amava-te, mudando em tudo,
fiel a ti.


René Char
trad.de. margarida vale de gato
relógio de água,2000

Etiquetas: ,

13/06/09

Em dia de S.Fernando Pessoa

Tenho o gosto de anunciar que saiu, no passado dia 9 de junho, segundo informação colhida no site da editora Companhia das Letras, de S.Paulo, Brasil, a edição brasileira do meu livro «Fernando Pessoa,O Menino da sua mãe».

Etiquetas:

Nascido em dia de Santo António





Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele.
Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Fernando Pessoa.Ricardo Reis-Odes

Obs.Neste dia, mas antes de Fernando Pessoa (n.em 1888), nasceu outro dos meus poetas: William Butler Yeats, irlandês(n. em 1855)

Etiquetas: ,

12/06/09

«ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE» - 35


foto:eli

O meu coração desce,
Um balão apagado...
– Melhor fora que ardesse,
Nas trevas, incendiado.

Na bruma fastidienta,
Como um caixão à cova...
– Porque antes não rebenta
De dor violenta e nova?!

Que apego ainda o sustém?
Átomo miserando...
– Se o esmagasse o trem
Dum comboio arquejando!...

O inane, vil despojo
Da alma egoísta e fraca!
Trouxesse-o o mar de rojo,
Levasse-o na ressaca.

Camilo Pessanha, Clepsydra

Etiquetas: ,

11/06/09

LI E RECOMENDO


Acabei de ler há dias este livro de Saul Bellow,prémio Nobel da Literatura de 1976, falecido em Janeiro do ano passado.Nele se fala de Tommy Wilhelm, um looser,um perdedor, confrontado com um dia da verdade em que se encontra assustado e em situação financeira péssima. Perante a indiferença do pai, célebre médico que só pensa na sua próxima morte, da ex-mulher que o explora, deixa-se enganar por um impostor misterioso e filósofo. Sem ninguém que possa socorrê-lo, entra, no final,numa igreja onde há cerimónias fúnebres de pessoa importante.E aí desaba,vergado pelo peso da sua vida e da sua desgraça - chora convulsivamente:
«As flores e as luzes fundiram-se estaticamente nos olhos cegos e molhados de Wilhelm;uma música pesada como a do mar encheu-lhe os ouvidos. Entrou dentro dele encontrou-o escondido no meio de uma multidão pela grande e feliz capa das lágrimas.Ele ouviu-a e foi mais longe do que o desgosto,através de soluços e choros dilacerantes, atrás da satisfação da derradeira vontade do seu coração.»
E assim termina este livro, que recomendo vivamente. Do autor apenas tinha lido os magníficos Ravelstein e Herzog.
ed. Texto editora

Etiquetas:

LEITURAS -112


robert musil

O cão que traz um pau na boca


«Um grande inventor respondia um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: 'pensando ininterruptamente nelas'. E, de facto, bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São em grande parte o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio uma perseverança assim! Mas vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco [...] de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo facto das ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor.»

Robert Musil, O homem sem qualidades
trad. de João Barrentoencontrado também em http://littlelittlewords.blogspot.com/

Etiquetas: ,

10/06/09

EM DIA DE CAMÕES - E DE PORTUGAL





Em Dia que é, acima de tudo, o Dia de Camões – vamos lê-lo, que é o melhor modo de homenagear o «poeta de todos os poetas»*



A üa dama por quem penava

Se n' alma e no pensamento
por vosso me manifesto
não me pesa do que sento;
que, se não sofrer tormento,
faço ofensa a vosso gesto.
E pois quanto Amor ordena
e quanto esta alma deseja
tudo à morte me condena,
não quero senão que seja
tudo pena, pena, pena.

Luís de Camões-Rimas-Redondilhas
*no dizer / cantar de Sérgio Godinho

Etiquetas: ,

09/06/09

DE AMICITIA -87



video

A Lista - de Oswaldo Montenegro


Faça uma lista de grandes amigos

Quem você mais via há dez anos atrás

Quantos você ainda vê todo dia

Quantos você já não encontra mais...

Faça uma lista dos sonhos que tinha

Quantos você desistiu de sonhar!

Quantos amores jurados pra sempre

Quantos você conseguiu preservar...

Onde você ainda se reconhece

Na foto passada ou no espelho de agora?

Hoje é do jeito que achou que seria

Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava

Quantos você conseguiu entender?

Quantos segredos que você guardava

Hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava?

Quantas você teve que cometer?

Quantos defeitos sanados com o tempo

Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava

Hoje assobia pra sobreviver?

Quantas pessoas que você amava

Hoje acredita que amam você?

Etiquetas:

08/06/09

ESCREVER - 80




Nenhum poeta canta porque tem que cantar. Pelo menos, nenhum grande poeta o faz. Um grande poeta canta porque resolve cantar. É assim agora e sempre foi. Às vezes somos levados a pensar que as vozes que se ouviam na alvorada da poesia eram mais simples, mais arejadas, mais naturais que as nossas e que o mundo que os poetas primevos contemplavam e pelo qual passeavam era dotado de uma espécie de virtude poética própria que podia quase sem alteração passar à canção. Hoje a neve está acumulada no Olimpo e suas encostas íngremes e escarpadas estão ermas e estéreis, mas imaginamos que outrora os alvos pés das musas roçavam o orvalho das anêmonas pela manhã e, à noite, chegava Apolo para cantar aos pastores do vale. Mas com isso estamos apenas atribuindo a outras eras o que desejamos, ou cremos desejar, para a nossa. Nosso senso histórico é deficiente. Todo século que produz poesia é, na medida em que o faz, um século artificial, e a obra que nos parece o produto mais natural e simples da sua época é sempre o resultado do esforço mais autoconsciente. Creia-me, Ernest, não há belas-artes sem autoconsciência, e a autoconsciência e o espírito crítico são uma coisa só. ...

Oscar Wilde - excerto do diálogo "The critic as artist"

Etiquetas: ,

07/06/09

UMA ATITUDE SE IMPÕE:AFRONTAMENTO - 23




Amigos, nada mudou
em essência.

Os salários mal dão para os gastos,

as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais,
testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,

relemos o Quixote,
e a primavera chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas

se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros

e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se divideme as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.


affonso romano de sant'ana

Etiquetas:

06/06/09

CAMONIANAS - 55



Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria:
Cá onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, e o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a desengana;

Cá, neste labirinto, onde a nobreza
Com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;

Cá neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!


Luís de Camões , Rimas - ed. de 1616
Em Camões:Babilónia=mal presente; Sião=tempo passado

Etiquetas:

05/06/09

LEITURAS - 111

[de Memórias de Adriano]

«Quanto à observação de mim mesmo, obrigo-me a isso, quanto mais não seja para entrar em composição com este indivíduo junto do qual serei forçado a viver até ao fim, mas uma familiaridade de sessenta anos comporta ainda muitas probabilidades de erro.No seu aspecto mais profundo,o meu conhecimento de mim próprio é obscuro, interior, inexpresso, secreto como uma cumplicidade. No seu aspecto mais impessoal, tão gelado como as teorias que eu posso elaborar acerca dos números: emprego o que tenho de inteligência para ver de longe e de mais alto a minha vida, que se torna a vida de um outro. Mas estes dois processos de conhecimento são difíceis e requerem, um, uma penetração no nosso íntimo, outro, uma saída de nós mesmos.»

Marguerite Yourcenar
trad. de Maria Lamas

Etiquetas: ,

04/06/09

LER OS CLÁSSICOS - 109



Passa por esse vale a Primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelo campo aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera;

Abranda o mar; menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente descem;
Os dias mais fermosos amanhecem;
Não para mim, que sou quem dantes era.

Espanta-me o porvir, temo o passado;
A mágoa choro de um, de outro a lembrança,
Sem ter já que esperar, nem que perder.

Mal se pode mudar tão triste estado;
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser.

Frei Agostinho da Cruz ( 1540-1619)

Etiquetas:

03/06/09

POETAS MEUS AMIGOS - 106












A noite límpida

dorme:

pelo amor das cerejeiras chegou a noite límpida.

um ciciar como vinha o vento

que ardia, furto do lume do teu corpo.

pelo amor todo dos frutos, consome

a brancura inatingível das primaveras; dorme.

Maria Gomes

agosto de 2004

Etiquetas:

02/06/09

ESCREVER - 79









[desassossegos]

Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás, - é o começo da escrita.
Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso
trad. de Isabel Pascoal

Etiquetas:

01/06/09

«O melhor do mundo"

Hoje é o seu DIA.
«o melhor do mundo são as crianças»
dizia o Poeta

Etiquetas:

DESASSOSSEGOS - 90



A carência


Eu não sei de pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que a minha solidão deveria ter asas.


Alejandra Pizarnik

Etiquetas:

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com Licença Creative Commons