18-07-2009

LI E RECOMENDO - 9


Pã andrógino


Pois eu já fui um rapaz e uma rapariga, um arbusto
e um pássaro e um peixe mudo do mar.
Emp
édocles




Quando desci e me tornei arbusto
a doce carícia da terra ao alto me lançou.
Profeta, bardo, médico ou príncipe,
Não o quis ser, porém.
Das mãos da rapariga suave o pássaro voou
até pousar nos meus cabelos.
Da sua ânfora repleta de uma água pura,
O peixe mudo do mar deu-me o silêncio,
O silêncio repleto.
Mortal, porém, permaneço.
Eterno quanto pássaro e mudo peixe.


Aurélio Porto (pseud.)
Poema 568,p.324 de Flor de um dia - ed.Sempre-em-Pé, 2009
Pedidos a contacto@sempreempe.pt

Etiquetas:

ESCREVER - 81




[Estilo simples e estilo medíocre]

«Ao estilo sublime contrapomos o estilo simples ou humilde. Assim como as coisas grandes devem explicar-se magnificamente, assim o que é humilde deve-se dizer com estilo mui simples e modo de exprimir mui natural. As expressões do estilo simples são tiradas dos modos mais comuns de falar a língua; e isto não se pode fazer sem perfeito conhecimento da dita língua. Esta é, segundo os mestres da arte, a grande dificuldade do estilo simples. Fácil coisa é a um homem de alguma literatura ornar o discurso com figuras; antes todos propendemos para isso, não só porque o discurso se encurta, mas porque talvez nos explicamos melhor com uma figura do que com muitas palavras. Pelo contrário, para nos explicarmos naturalmente e sem figura, é necessário buscar o termo próprio, que exprima o que se quer, o qual nem sempre se acha, ou, ao menos, não sem dificuldade, e sempre se quer perfeita inteligência da língua para o executar. Além disto, as figuras encantam o leitor e impedem-lhe penetrar é descobrir os vícios que se cobrem com tão ricos vestidos. Não assim no estilo simples, o qual, como não faz pompa de ornamentos, deixa considerar miudamente os pensamentos do escritor... »

Luís António Verney,(1713-1792)
em O Verdadeiro Método de Estudar

Etiquetas: ,

17-07-2009

A PALAVRA


Carlos Drummond de Andrade

Etiquetas: ,

INESIANAS -18



Anjos e demónios caminham nos nossos jardins e
batem-nos à porta.
O que fazer?
Lançar-lhes pedras como aos cães vadios ou
convidá-los à nossa mesa?
Ouvir as histórias que eles trazem nos dedos é
como entrar de costas num espelho e afogar-se
assim no desconhecido que se atravessa.

Lídia Martinez - in "Cartas de Pedro e Inez - o mel do meu consolo", Ulmeiro, Lisboa, 1994
.............................................

Gostaria de chamar a vossa atenção para a série de poemas que Nuno Dempster - em a esquerda da vírgula ( http://esquerda-da-virgula.blogspot.com/) - vem publicando sobre o tema de Pedro e Inês.O título geral da série é Breves eram os anos.É mais uma visão da história/mito pelos olhos de um poeta, neste s-.XXI.

Etiquetas:

16-07-2009

O PRAZER DE LER - 80



A Verdadeira Leitura


As leituras que a gente faz em busca do saber não são, na verdade, leituras. As boas, as fecundas, as prazenteiras, são as que a gente faz sem pensar em instruir-se.

José Azorín, in 'Reflexos de Espanha'

Etiquetas:

15-07-2009

NOCTURNOS -71





Noite de folha em folha murmurada,
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptível em gestos quietos.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Etiquetas:

13-07-2009

«ensinou a observar em verso» - 20



Fantasias do Impossível: Esplêndida

Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
Do lúbrico Versailles do Rei-Sol
Aumenta-os com retoques sedutores.
É como o refulgir dum arrebol
Em sedas multicores.

Deita-se com languor no azul celeste
Do seu landau forrado de cetim;
E os seus negros corcéis que a espuma veste,
Sobem a trote a rua do Alecrim,
Velozes como a peste.

É fidalga e soberba. As incensadas
Dubarry, Montespan e Maintenon
Se a vissem ficariam ofuscadas
Tem a altivez magnética e o bom-tom
Das cortes depravadas.

É clara como os pós à marechala,
E as mãos, que o Jock Club embalsemou,
Entre peles de tigres as regala;
De tigres que por ela apunhalou,
Um amante, em Bengala.

É ducalmente esplêndida! A carruagem
Vai agora subindo devagar;
Ela, no brilhantismo da equipagem,
Ela, de olhos cerrados, a cismar
Atrai, como a voragem!

Os lacaios, vão firmes na almofada;
E a doce brisa dá-lhes de través
Nas capas de borracha esbranquiçada,
Nos chapéus com roseta, e nas librés
De forma aprimorada.

E eu vou acompanhando-a, corcovado,
No trottoir, como um doido, em convulsões,
Febril, de colarinho amarrotado,
Desejando o lugar dos seus truões,
Sinistro e mal trajado.

E daria, contente e voluntário,
A minha independência e o meu porvir,
Para ser, eu poeta solitário
,Para ser, ó princesa sem sorrir,
Teu pobre trintanário.

E aos almoços magníficos do Mata
Preferiria ir, fardado, aí,
Ostentando galões de velha prata,
E de costas voltadas para ti,
Formosa aristocrata!

in Diário de Notícias, 22.03.1874

Cesário Verde

Etiquetas:

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com Licença Creative Commons