10/02/10

DESASSOSSEGOS -103



"Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior."

Bernardo Soares.Fernando Pessoa, L.D.

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09/02/10

DO FALAR POESIA -108



No livro do imaginário, a lua é verde de morrer, as cadeiras brancas,
e a terra amarela começa a dormir — gosto dos poetas obscuros.
Não há poetas obscuros.
Se alguém diz — esta atenção não é minha — não é um poeta obscuro?,
e se diz — esta não é a minha atenção — não é um poeta claro?
Não.
É difícil encontrar chaves — às vezes é fácil, às vezes difícil.
Não.
Cada imagem é a chave de outra imagem — e elas abrem-se umas
às outras, as imagens.
Não.
Tudo são chaves para abrir tudo.
Não.
A chave entra na fechadura, a porta abre-se sobre uma nova porta.
Não.
Portas sobre portas, até que a porta final abre sobre a luz que
atravessa o espaço aberto de todas as portas.
Não.Os poetas são metafísicos.
Não.
A metafísica é uma distância de onde os poetas vêem, em perspectiva,a realidade.
Não.
Não há realidade?
Não, não há realidade — todos os poetas são claros a esse respeito.
Se eles dizem — atenção — cria-se a realidade da atenção.
Se eles dizem — atenção — anulam a atenção, criam um espaço vazio.
A imagem não é uma realidade?
O que os poetas provam é que é preciso uma imagem para revelar
que a realidade não existe.
No livro do imaginário, a lua é verde de morrer, as cadeiras brancas,
e a terra amarela começa a dormir — gosto dos poetas claros.
Não, ainda não.


Herberto Helder, Photomaton & Vox

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08/02/10

LEITURAS- 132



"Morte em Veneza"

Se os reis também morrem, e pouco importa onde morrem,
por que havia um conde de ir a Veneza? Morrer por morrer,
por que não em Ravena? No entanto, se os reis também
morrem de amor, se apenas em Veneza um conde soube
o que era amar (ele que em Tadziu viu a beleza e viu
a morte), por que não em Veneza, já que, morte por morte,
antes morrer de amor?

Arménio Vieira in O Poema, a Viagem, o Sonho
Editorial Caminho,Lisboa, 2009
Encontrado em http://adispersapalavra.blogspot.com
/.

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07/02/10

OMNIA VINCIT AMOR - 140


foto de Claudio Fagundes
http://claudioalex.multiply.com

[Abril, o nosso mês]


Abril o nosso mês, Rainer, o mês anterior àquele que nos uniu. Quantas vezes Abril me faz, e não certamente por acaso, pensar em ti. Porque em Abril se encontram contidas as quatro estações, com as suas horas de uma atmosfera de neve e quase de Inverno, ao lado de outras horas de um esplendor escaldante, e de outras ainda de tempestades quase de Outono, semeando o chão húmido não de folhas desmaiadas, mas de invólucros de flores em botão - e não é verdade que nesse chão habita, a qualquer hora, a Primavera, que reconhecemos antes ainda de qualquer primeiro olhar? Daí o silêncio e a naturalidade que nos uniram, como algo que tivesse existido sempre.Se durante anos fui tua mulher, foi porque tu foste para mim o pela primeira vez real, corpo e ser humano indiferenciávelmente unos, facto indubitável da própria vida. Palavra por palavra, teria podido confessar-te o que, como confissão de amor, foste tu a dizer-me:"Só tu és real." Assim nos tornamos esposos antes de termos sido amigos e a nossa amizade também mal a escolhemos, originária de núpcias igualmente subterrâneas. Em nós não eram duas metades que se buscavam; era a totalidade surpreendida a reconhecer-se, como um calafrio, numa incrível unidade. E deste modo fomos irmãos, mas como irmãos de um tempo remoto, anterior àquele em que o incesto se tornaria sacrilégio. A nossa solidariedade, pronta e disponível - para usar a tua expressão - para a luz e para o escuro de todas as estações teve que sofrer a prova das circunstâncias inamovíveis e imperiosas da vida, as circunstâncias que quase chegam a suprimir a própria expressão poética do que vive. Mas teríamos o direito de destroçar, como fizemos, o que então conquistou forma poética? ....

Lou Andreas-Salomé
Escrito em Abril de1934, oito anos depois da morte de Rilke, num apêndice à sua autobiografia - (excerto transcrito de aguarelas de turner- http://aguarelast.blogspot.com)

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06/02/10

OS MEUS POETAS - 134

Quadrado

Deixai-me com a sombra

Pensada na parede

Deixai-me com a luz

Medida no meu ombro

Em frente do quadrado

Nocturno da janela

Sophia de Mello Breyner Andresen

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