18-05-2008

LEITURAS - 74



"Encheu-se de presunção! é que lembrou-se de ensinar francês aos servos! Nem sei se o senhor acredita. é benéfico, diz ele, é benéfico ao servo e ao criado! é um maldito desavergonhado, mais nada! Para que precisa o servo de falar francês, é capaz de me dizer? Nós próprios para que precisamos do francês, para quê? Para as gentilezas com as meninas durante a mazurka? Talvez para galantear as mulheres alheias? é uma depravação, mais nada! Por mim, bebe-se um jarro de vodka e já se fala em todas as línguas."
Dostoiewsky - A aldeia de Stepantchikovo e os seus habitantes"

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17-05-2008

DE AMICITIA - 75





Rondel de l'adieu


Partir, c'est mourir un peu,
C'est mourir à ce qu'on aime:
On laisse un peu de soi-même
En toute heure et dans tout lieu.

C'est toujours le deuil d'un voeu,
Le dernier vers d'un poème:
Partir c'est mourir un peu.

Et l'on part, et c'est un jeu,
Et jusqu'à l'adieu suprême
C'est son âme que l'on sème
Que l'on sème à chaque adieu:

Partir, c'est mourir un peu.


Edmond Haraucourt (1856 -1941)

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16-05-2008

OMNIA VINCIT AMOR - 100




Deixa-me amar-te com ternura, tanto
Que nossas solidões se unam
E cada um falando em sua margem
Possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
Cavalgando mares impossíveis
Em frágeis barcos e insuficientes velas
Pois disso se fará a nossa voz.

Deixa-me amar-te sem receio, pois
A solidão é um campo muito vasto
Que não se deve atravessar a sós.

Lya Luft

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15-05-2008

ANO VIEIRINO - 7



[O Amor Vulgar]


Pinta-se o Amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino, que vem a ser? Uma vontade com afectos, e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos Pintores do Amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem, que isto que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância: e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama, porque conhece, é amante; quem ama, porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.
Padre António Vieira, in "Sermões"

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14-05-2008

POETAS MEUS AMIGOS -79


foto de abbas kiarostami


pouso

no espaço entre
nós transitam
estrelas e horas

frágeis que sempre
parecem
incertas

um imenso luar inscreve teu
cheiro nas memórias do
meu corpo

e a poesia busca
alcançar a mudez que as
lágrimas carregam no

espaço onde se
encontram teu sorriso e meus
olhos



Adair Carvalhais Júnior

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